Eu tinha saias eu tinha saias à roda eu tinha pés sem sapatos ou sapatinhos pretos brancos de pó eu tinha sedas que se misturavam com a minha pele e o meu suor quando dançava eu tinha cabelos que me cravavam a cara de preto quando estavam molhados eu tinha terra no corpo eu tinha acordeãos no corpo eu tinha noite no corpo e garrafas cheias de álcool puro que cheirava a jasmins e amêndoas eu tinha um saco para me esconder das estrelas quando o corpo morria eu tinha pés de gato em cada mão e sapatilhas de pontas nos dedos e podia andar de pernas para o ar e aguentar-me num fio estreito fio de navalha eu tinha cordas de estendal para tocar violino com voz de meias de renda rota e baton vermelho a desenhar aguarelas esborratadas na água que pingava eu tinha uma bengala onde enfiei um sapato roxo de verniz e meti o outro sapato roxo no meu pé e embrulhei-me num trapo e fui um herói de guerra em palco um dia, de cabelos longos a cravar a cara de navalhas e olhos como dois aquários vazios, sem lâmpadas partidas a lembrar candeeiros antigos por ali passados, poderia ser um herói, um homem, um bocadinho deus, um herói de saias e sem perna se a perna tivesse ficado lá escondida, a entranhar-se na terra, a fazer crescer qualquer coisa bela?...
Não sei se volto lá.