4/26/2010

Colégio Vasco da Gama

Na minha escola havia o homem com poucos dentes que cuidava as rosas, botas de borracha, e que nos levava em molhinhos de gente pequena a ver os coelhos e os porcos. Senhor Alexandre.
O senhor Elias era mosqueteiro de livro de espadas, bolsos cheios de trocos para chocolates, estórias de encantar garotos e mãos miúdas de podar galhinhos. Sabia o nome de todas as flores.
Havia um homem do lixo sujo e ridículo, não me lembro de gostar dele, não me lembro de nada na sua cara que não sempre o mesmo pó o mesmo riso a voz alta.
Na escola havia a senhora da sineta, uma sineta de verdade pesada e grande que nos empurrava de uma só vez para dentro da sala, havia pássaros e pinheiros e areia e formigas no chafariz e bichos de conta que escondíamos nos bolsos e tanta gente a quem nunca poderei apertar a mão e pedir desculpa pela minha então magra idade, ainda tão indiferente a tesouros.

4/15/2010

Mas afinal é a minha casa, a minha casa é um circulo de giz com sapatos e bonecas dentro e tem tantas janelas como se não tivesse paredes, só o céu e a chuva que de repente fez uma cortina de pano grosso em frente à mesa onde me sento. A minha casa tem tantas janelas como se fosse rua e não houvesse janela nenhuma, só o tremer do chão com a passagem de um autocarro, a voz do homem do lixo à meia-noite e um bocadinho mais, a trovoada.
Chove sem frio. Desmoronam-se coisas barulhentas no céu. As cidades fazem silêncio nos dias de trovoada...
Vou sentir falta da minha casa, quando daqui a pouco me for embora.

Sonhos





4/12/2010

Deito-me cedo. Nada mais me espera depois de fechar a porta de casa. O pó dos livros. Os cactos sobrevivem no meu alheamento. O pão que como a olhar a rua, a noite a chegar aos vidros dos carros.
O silêncio das coisas que são nossas e que não nos incomodam o adormecer.
Na minha rua alguém toca saxofone e as árvores são velhas e estão em flor.
Um dia partirei e terei de inventar tudo de novo. Erguer a minha casa do pó. Escolho um figurino e todos acreditarão. Dar a mão um estranho. Espero partir, partir...
Amargo na boca... Por isso apago a luz e deito-me cedo.