4/27/2017

Alentejo

As rãs falam na sua língua de rãs, verdes, imóveis como nenúfares de música, o meu cabelo seca no sol e na almofada, deixa uma mancha de fresco e sabonete, alguns jasmins estremecem, algumas laranjas acabam de cair dentro da primavera, burros e grilos passeiam em lugares que não vejo, janelas azuis cheias de calor e telhas à espera de andorinhas.
As árvores com o barulho de passos na areia. Com o barulho de saias a girar.
Abelhas. 

4/26/2017

24 de Abril

Vês os meus pés a boiar na fotografia? 
Estou feliz.
Mas quem me dera ter-te conhecido mais tarde, quase velha, com a certeza de ter-te para sempre, a tua lágrima fácil num cinema de língua estranha, o teu corpo cheio de vapor ao pé do meu nesta água quente de banheira de hotel, apaixonado por mim e pela minha lágrima fácil em cinemas de língua estranha ou ruas com azulejos encardidos e cães mordidos pela solidão, lá fora todo um mundo à espera da nossa salvação, do nosso amor exemplar e mudo de crianças amachucadas de rugas que o tempo sem nós nos deixou, quem me dera ter-te conhecido mais tarde para esta asa insistente de mosquito com o teu cheiro me deixar em paz, sou quase velha e conheci-te há tanto tempo, vai-te embora, vai-te embora, vai-te embora...

4/02/2017

11 anos

Deitada no calor de pinhões e caruma da Caparica a mesma canção sobre cigarros, os olhos fechados. O meu corpo ainda sem nenhum desejo de fumo ou outro vício qualquer. A fingir fome.