No Verão a terra ardia e as galinhas procuravam bichos de areia. O sol era uma bochecha cheia de vergonha escondida ao entardecer atrás da casa, ao lado da casa. A casa era a pequena das duas, pedra sem candeeiro ou então era a tarde a encandear-me os olhos e a fazer de todas as paredes uma noite cerrada. A casa cheirava a fumo e restos de almoço num balde, a casa cheirava a ela que depenava uma galinha cheia de bichos de areia, o cabelo branco que foi sempre assim para mim apanhado num rolinho, uns brincos de ouro?... A casa era escura porque não tinha candeeiro ou então era a tarde a encandear-me os olhos ou então era eu ser pequena e os meus olhos não perderem tempo com nenhuma escuridão, eu dormia na casa que era a grande das duas, que tinha escadas, que tinha quartos e camas de ferro, que tinha silêncios de sesta, eu dormia na casa que era branca enquanto as galinhas brincavam sem mim e eu sonhava com elas, com afugentá-las de asas abertas em frente aos meus sapatos, assustadas só o tempo suficiente para um pulo e depois a mesma moleza de penas a bicar o chão vazio. A minha mãe era pequena só um pouco menos que eu e calava-se de calor numa cadeira à porta da casa que era pequena que era de pedra que não tinha luz por dentro que tinha sol por fora. O meu pai... não me lembro. Dizia-me para não arreliar o cão. Os cães, o cão era o grande dos dois. O meu pai guardava-nos a todos para sempre numa cassete. O meu pai talvez voltasse com ele, magro corpo de boina mãos sujas cheias de amendoeiras poços fundos cordeirinhos brancos, sorriso bondoso malandro, eu era pequena não sei se sei o que seria a bondade.
As casas todas tinham portas com fitas de plástico para que não entrassem as moscas. As fitas de plástico também não deixavam entrar o calor...