4/28/2009

É diferente. Há o que se sente entre a roupa, aninhado entre as lãs e o linho do corpo, junto à pele como um hálito quente e aguçado que arranha as costas, que contorce as pernas e os dedos das mãos e que entreabre os lábios como uma fresta por onde se escuta um segredo só de ar.
E há as listas de compras, os sacos de maçãs, as gavetas, o pão quente, os sapatos novos, o pijama debaixo da almofada, a varanda, os pés frios, as vendedoras de flores, a chuva, os dois bancos do comboio, o cabelo desgrenhado de manhã onde quero que te metas sem pedir permissão.

4/27/2009

O amor, pela Rita

Dás por ti a ter saudades de algo que nunca foi...

"Olhava para as paredes sujas do pátio e não sabia se aquilo era histeria ou amor."

"Your skin is something that i'd stir into my tea"

4/25/2009

Ouço o piano, o vento lá fora não magoa os telhados nem as chaminés, nada mexe, a camisa de noite ficou pendurada, quieta, na cadeira. Apodera-se de mim uma lânguidez, um arrepiar de pele silencioso, talvez agora nenhum pássaro bata asas para voar, flutue apenas...

4/16/2009

Caminha, caminha, caminha sem direcção como se o teu corpo fosse apenas memória de liberdade, liberdade que rebenta as cores do segredo pintado, tanta coisa por dizer, caminhas, caminhas sem direcção, electro, e também petróleo, e até de pé, de pé e caminhas tu, o mistério, o mistério esse, como diz a canção, será que o persegues, há brisa de verão agora e tu? Terás o mistério? Tanto por dizer, por dizer um tanto mais, caminha, caminha, caminha sem direcção, caminha sem direcção, tanto por dizer e tu, e tu caminhas, caminhas sem direcção, a luz mistura-se, é luz ou não-luz, a luz mistura-se e passas, sim, sereno, passas tanto, passas tanto, tu caminhas, caminhas sem direcção, passas tanto, passas tanto, caminha, caminha sem direcção, passas tanto, e tu, tu na gaiola...


Suburbia Playtime, Maio 2005

4/13/2009

valsa de monstros

Quando acendi a luz o teu quarto tinha escurecido e tinha a textura de uma rosa vermelha e tínhamos todos os olhos a ver-nos os dedos das mãos e dos pés.

4/12/2009

a vida devia ser assim!...

páscoa

Terra pequena de rendas e barro, mulheres velhas, de cabelos compridos em ninhos cinzentos e de brincos de ouro, onde tento desenterrar os meus vinte e um anos e as minhas pernas capazes de saltar papoilas e pedras e as minhas bochechas capazes de corar de vergonha, casas escuras cheias de pratos com rosas de esmalte e cheiro de guisado e café com leite e de lume antigo, adormeço tranquila ao colo destes lugares que pouco mais durarão, quando todas as mulheres vestidas de preto desaparecerem e levarem com elas as mezinhas, os cochichos espiatórios, as linhas de bordar, as mãos tortas e coxas capazes de acariciar pétalas.

4/06/2009


Quando me deito já todos dormem às escuras.

A minha cama é pequena e durmo nela sozinha. Tenho bonecas e almofadas brancas que espiaram muita gente antes de mim, fitas de seda que se desfazem nos arranhões do tempo. Almofadas de muitos mortos, guardo-as comigo agora como um colecionador insaciável, respiro as estórias que escondem e adormeço nelas.

Esta não é a minha casa. A minha casa foram muitos quartos de cores diferentes, laranja, branco, rosas de pano e paus de chuva… Mas não te digo.

Digo-te que hei-de torturar-te mas sabes que não, não sabes? Sabes que estarei lá para apertar as tuas mãos e apertar-te o cabelo num laço e humedecer-te a boca e dormir aos pés da tua cama até respirares tranquila…

Foi o que escolhi. Ser mãos que adormecem.