Aos 15 anos quis ser grande. E ser grande eram umas calças aos quadrados e uns sapatos de camurça com atacadores… e andar sozinha quando chovia, e acabar a tarde numa casinha de chá, mesa para duas pessoas na varanda pequenina, chá de jasmim com flores a boiar e vapor.
Aos 15 anos era grande. Acordava num parapeito ao pé do mar e ouvia os pardais, ouvia as ondas, ouvia a panela cheia de aveia e maçã, ouvia a viola dela, ouvia Jorge Palma e Bach, ouvia folhas de papel de poemas grandes de poetas grandes. Acordava e a casa não era minha, era dela e do mar, portanto eu era grande, 15 anos que não interessavam mas só aquele dia, só aquela manhã, só aquela manhã eram os outros anos todos que eu precisava...
1/16/2008
há cinco anos
1/13/2008
teatro
Shakespeare chegou e eu estava de pijama.
Não faz mal. Ele vinha em papel...
Era uma vez um lugar com chão de madeira e pó em pedaços, cadeiras vazias, paredes pretas com circulos de lâmpadas, e não fazia mal se eu estivesse de pijama, Shakespeare chegava sempre e para ele eu tinha o cabelo ondulado a cair nos ombros, pestanas compridas e lábios vermelhos. E saltos altos, e gravata, podia ser mulher ou podia ser principe de uma ilha com deuses de flores e sal. Podia tentar...
Ele senta-se à minha frente e ri-se de mim. Eu sei, eu sei que não era sobre mim, nenhuma letra era sobre mim... Naquele tempo não haviam mulheres, haviam corpos de vestidos longos onde o vento se perdia a fazer saias de balão, corpos de cabelos longos onde o vento se amainava a romper flores amarelas, corpos de pés pequenos onde o vento se enterrava para florir em jasmins. Corpos que dormiam só com a pele, com as unhas, com um respirar baixinho... Ele ri-se da minha voz que não sabe cantar, o que ele escreveu era sobre uma criança de quinze anos e ela nunca teria a minha voz se alguma vez lesse como ele a desenhou no papel...
Shakespeare chegou e riu-se e eu gaguejei, atrapalhada.