Desejo sempre muita merda. Foi o que me ficou das nossas fotografias. Só isso. O resto, a velocidade com que trocávamos de roupa atrás dos panos para entrar de cara serena, a caixa das pinturas com batons amolecidos, o cheiro das toalhinhas de bebé para limpar a cara... já lá vai. Não me lembro, lembro-me de como era, não me lembro de como se sentia. Só às vezes a música, se quero à força sentir tudo outra vez salva-me a música a pôr lagos entre as pestanas. É mentira, é um bocadinho mentira, se está escuro e me deito no chão ouço a voz dele que desde logo loguinho me pareceu teatro em forma de gente, lindeza em forma de gente. E depois da voz dele vem o cheiro dos gelados de máquina, morango e baunilha, o muro, aquela alegria grande como um avião de papel que só voa um bocadinho, mas voou, de eu ter um gelado em hora de aula, tão longe da escola. E o tronco curvo da árvore onde nos sentávamos sem sapatos, o nevoeiro do mato, os pirilampos, nesse dia bebemos chá de camomila, o cheiro faz-me sempre sentir como se tivesse perdido qualquer coisa por ali. Olho para o chão, tiro do bolso os óculos, não vejo nada.
No dia a seguir já não encontro a mesma coisa. Parece-me demasiado maravilhoso para ser verdade, ponho a música só para confirmar, pirilampos o riachinho de molhar o dedo grande do pé os batons vermelhos a derreter o olhar sereno antes de atravessar o pano, as mãos que então eram capazes de passarinhar entre as tiras de luz amarela a fazer sombras nos ossos da cara...
Olha, muita merda, e pode ser que o resto ainda apareça.
2/28/2007
2/15/2007
Aqui os comboios têm flores.
Sou uma menina não sou mais nada, sou uma menina sentada num comboio de papel e lápis na mão, maravilho-me com este lugarzinho feio, junto à plataforma há uma risca amarela, não podes passar o traço não podes passar o traço mas eu escorrego sempre para o lado de lá numa gula de entrar primeiro, um dia destes caio na linha e atropela-me uma carruagem de flores a correr. Sou só uma menina, entendes? Queria ter já velhice para contar que às vezes vejo um velho sentado num banco de metal da estação e penso que à frente dos olhos dele deve passar um filme diferente, anos a preto e branco em que os prédios e as mulheres pretas de vestidos garridos com bebés atados às costas ainda não tinham chegado a fazer deste lugar um pedaço de uma terra muito longe, que imagino cheirar a lápis de cera castanhos e vermelhos e amarelos e... vento cheio de areia. Um dia destes morre, sozinho, e não deixa mais ninguém ver esta linha de comboio no tempo em que as mulheres tinham cabelos diferentes e mandavam para a escola miudos de suspensórios. Aquele velho que só por ser velho é um aquário onde boiam coisas que nunca vi e que vejo com ele sentado ali. Como se compreende um velho sem nunca ter sido velho também? Acho que lhe dou cor a mais às memórias, sou só uma menina a pintar livros de desenhos...
Sou uma menina não sou mais nada, sou uma menina sentada num comboio de papel e lápis na mão, maravilho-me com este lugarzinho feio, junto à plataforma há uma risca amarela, não podes passar o traço não podes passar o traço mas eu escorrego sempre para o lado de lá numa gula de entrar primeiro, um dia destes caio na linha e atropela-me uma carruagem de flores a correr. Sou só uma menina, entendes? Queria ter já velhice para contar que às vezes vejo um velho sentado num banco de metal da estação e penso que à frente dos olhos dele deve passar um filme diferente, anos a preto e branco em que os prédios e as mulheres pretas de vestidos garridos com bebés atados às costas ainda não tinham chegado a fazer deste lugar um pedaço de uma terra muito longe, que imagino cheirar a lápis de cera castanhos e vermelhos e amarelos e... vento cheio de areia. Um dia destes morre, sozinho, e não deixa mais ninguém ver esta linha de comboio no tempo em que as mulheres tinham cabelos diferentes e mandavam para a escola miudos de suspensórios. Aquele velho que só por ser velho é um aquário onde boiam coisas que nunca vi e que vejo com ele sentado ali. Como se compreende um velho sem nunca ter sido velho também? Acho que lhe dou cor a mais às memórias, sou só uma menina a pintar livros de desenhos...
Deixo-me ficar sentada com o frio a mordiscar-me o pescoço, não me apetece voltar para casa, apetece-me qualquer coisa extraordinária, tento ser uma mulher grande, uma mulher alta, uma mulher bela, uma mulher velha com coisas demais para contar, aqui os comboios têm flores, flores ou letras de spray, e entrar no comboio é como entrar dentro da minha cabeça, lá dentro tanta gente bancos verdes mulheres a ler revistas homens baixinhos com o nó da gravata torto mulheres que fumam cigarros onde ficam lábios vermelhos marcados o revisor cansado de andar sempre na mesma linha e ninguém que lhe dê um sorriso para picar com o bilhete... tanta coisa e cá fora... quando saio esqueço-me do que ia a dizer.
2/08/2007
Hoje está a chover
Chove, e a chuva traz fotografias velhas a boiar até mim, o som dos pneus na chuva lembra-me a escola e aqui nunca mais choveu na escola, chove sempre na rua...
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