2/28/2007

Muita merda

Desejo sempre muita merda. Foi o que me ficou das nossas fotografias. Só isso. O resto, a velocidade com que trocávamos de roupa atrás dos panos para entrar de cara serena, a caixa das pinturas com batons amolecidos, o cheiro das toalhinhas de bebé para limpar a cara... já lá vai. Não me lembro, lembro-me de como era, não me lembro de como se sentia. Só às vezes a música, se quero à força sentir tudo outra vez salva-me a música a pôr lagos entre as pestanas. É mentira, é um bocadinho mentira, se está escuro e me deito no chão ouço a voz dele que desde logo loguinho me pareceu teatro em forma de gente, lindeza em forma de gente. E depois da voz dele vem o cheiro dos gelados de máquina, morango e baunilha, o muro, aquela alegria grande como um avião de papel que só voa um bocadinho, mas voou, de eu ter um gelado em hora de aula, tão longe da escola. E o tronco curvo da árvore onde nos sentávamos sem sapatos, o nevoeiro do mato, os pirilampos, nesse dia bebemos chá de camomila, o cheiro faz-me sempre sentir como se tivesse perdido qualquer coisa por ali. Olho para o chão, tiro do bolso os óculos, não vejo nada.
No dia a seguir já não encontro a mesma coisa. Parece-me demasiado maravilhoso para ser verdade, ponho a música só para confirmar, pirilampos o riachinho de molhar o dedo grande do pé os batons vermelhos a derreter o olhar sereno antes de atravessar o pano, as mãos que então eram capazes de passarinhar entre as tiras de luz amarela a fazer sombras nos ossos da cara...
Olha, muita merda, e pode ser que o resto ainda apareça.

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