11/29/2008

antes da estreia...

A mesa é só uma mesa. Até vir o homem da luz. Aí uma mesa pode ser um envelope bem vincado, um coração partido, uma mulher deitada com os braços abertos, com a cara escondida na penumbra do cotovelo.

Ninguém mexeu em nada, garanto-lhe, a mesa está onde sempre esteve, sim, foi o homem da luz que veio, sim, fica logo tudo diferente, não é?

11/28/2008

Coimbra, 27 de Novembro de 2008

Chegámos tarde.
Três batas brancas a correr pelos corredores pelas escadas pelo quarto, chegámos tarde.
Ele já dormia, num repouso sem ar de máscara quente, e eu olhava sempre para a luzinha que tentava acordar-lhe os olhos, nunca para os olhos, nem para a boca seca, nem para as memórias que lhe imaginei. Não lhe quis guardar a cara.
E o filho tinha uma súbita água a escorrer pelos lábios e pelo pescoço, e começou a andar mais devagar. É que tinha acabado de chegar e também chegou tarde.



(e guardei-lhe a cara, claro que sim...)

11/12/2008

Falamos de coisas banais.



Equanto isso, aproximo-me sorrateira por trás de ti, sem me veres, e enquanto falas
aspiro o perfume do teu pescoço.

Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Ela andava às compras. Um carrinho emperrado e os olhos perdidos na prateleira dos fiambres. E outras mãos.
Telefonaram a dizer. Coimbra.
Ela riu a chorar. As outras mãos riram-se nos ombros dela.
Dois dias antes de não haver mãos.

11/11/2008

Lembro-me das outras vezes em fiquei à porta, os olhos amachucados como duas folhinhas de papel molhado.

(podia ser um cão preto ou uma menina...)