6/12/2017

Escrevi-te. Como sei que escreverei muito tempo, mesmo só ao encostar-me na mesa da cozinha a sorver café quente e a ouvir os pássaros no pátio, a minha pele um ninho redondo de gente, mesmo só ao parar as mãos na roupa engomada e dobrada antes de arrumar, cheia de perfume e vapor.
Apetece-me dedicar-te todo um minuto, porque já foram todos teus e tudo era tão bonito assim.

Gil

Desci, de braço dado contigo, pelo menos um milhão de escadas
e agora que aqui não estás existe o vazio a cada degrau.
Mesmo assim foi breve a nossa longa viagem.
A minha dura ainda, já nem preciso
dos transbordos, dos lugares marcados,
das armadilhas, das humilhações de quem acredita
que a realidade é aquela que se vê.
Desci milhões de escadas de braço dado contigo
não apenas porque talvez com quatro olhos se veja melhor.
Desci-as contigo porque sabia que entre nós os dois
as únicas pupilas verdadeiras, embora tão esfumadas,
eram as tuas.

Eugenio Montale