Há um tempo para ficar quieta. Para recostar o corpo num sofá mole e fechar os olhos e sentir o cheiro dos frutos ainda verdes lentamente adultos debaixo do sol. Para descobrir sardas no nariz, conchas cheias de brincos e pedras verdes na gaveta, saquinhos de pano de ganchos e ervas secas, e as paredes são sempre tão cheias do que não ousamos contar a ninguém. Há um tempo para ficar sentada à mesa ver a luz mudar na rua, distraída, sem ver a luz mudar na rua, distraída, há funis em cordéis debaixo de toldos e cerejas nos becos, engraçado, funis em cordéis e cerejas, como descrevem bem a minha cidade.
5/31/2010
5/17/2010
Álbum
Poderia viver só de belo, sentada na cadeira virada para as janelas a contar estrelas em cada vidro, apenas, ensurdecer de música, um copo de água com dedadas minuciosas.
Um dia houve em que os homens cantaram debaixo de lua e sal, garrafa na mão marinheiros, era eu ainda acabada de começar, cabeça desgrenhada de criança cheia de pó, longa viagem o cansaço caído no chão debaixo de lua e sal, vi gente dançar, vi gente dançar, vi gente lançar-se ao mar sem medo de ter corpo, vi gente dançar.
Repito-me. Em frente ao actor lembro quando também eu ardia e transpirava as luzes escuras do palco e a mentira era comovente como uma estória antiga. Quase verdade, não fora a luz demasiado bela, azul, as crianças penteadas em golas de renda, loucos com mãos de cetim, velhos trapezistas, pó de arroz em lufadas brancas nas cortinas... Volto a dizer, há música que não ouso escutar, é outono debaixo dela há risos debaixo dela sem sapatos nas folhas que se partem, quero partir para nunca mais voltar, sou um pássaro estilhaçado.
5/08/2010
Balada de Despedida do V ano Jurídico
Da primeira vez furei a multidão, era tão pequena, tão orgulhosa na minha capa negra. Fechei os olhos e sorri, tanto tempo pela frente ainda...
Hoje traço a capa e sei que em breve partirei. E cada música tem palavras que conheço bem, íntimas, aconchegadas em mim como a minha capa negra. Tu ouves mas não estás aqui, não sabes que não se respira até ao último acorde, medo que seja já a última vez.
Da próxima vez será a minha última serenata.
5/02/2010
faixa um
Esta música é tua, menino.
Quando daqui a muito tempo formos velhos esta música será tua, e a tua casa terá gatos e hortelã como hoje. A tua casa será azul como hoje e eu dentro dela com vinte anos, eu dentro dela adormecida no sofá, pequena num cantinho, a cabeça tombada em paz e o incenso a desfazer-se em rápidos véus, os gatos, a música que é tua. Tranquila casa, tranquila casa de mestre...
Subscribe to:
Posts (Atom)