5/17/2010

Álbum

Poderia viver só de belo, sentada na cadeira virada para as janelas a contar estrelas em cada vidro, apenas, ensurdecer de música, um copo de água com dedadas minuciosas.
Um dia houve em que os homens cantaram debaixo de lua e sal, garrafa na mão marinheiros, era eu ainda acabada de começar, cabeça desgrenhada de criança cheia de pó, longa viagem o cansaço caído no chão debaixo de lua e sal, vi gente dançar, vi gente dançar, vi gente lançar-se ao mar sem medo de ter corpo, vi gente dançar.
Repito-me. Em frente ao actor lembro quando também eu ardia e transpirava as luzes escuras do palco e a mentira era comovente como uma estória antiga. Quase verdade, não fora a luz demasiado bela, azul, as crianças penteadas em golas de renda, loucos com mãos de cetim, velhos trapezistas, pó de arroz em lufadas brancas nas cortinas... Volto a dizer, há música que não ouso escutar, é outono debaixo dela há risos debaixo dela sem sapatos nas folhas que se partem, quero partir para nunca mais voltar, sou um pássaro estilhaçado.

4 comments:

Unknown said...

Não gosto da palavra estilhaçado, as coisas estilhaçam, as pessoas morrem...e o passáro não está estilhaçado está sozinho, ou melhor ainda, descobriu que sempre esteve.

• pO • said...

As coisas estilhaçam a partir do centro. Sabes lá tu...

ruimário said...

As coisas estilhaçam e há beleza pura nesse brilho de mil pedaços... depois incrivelmente voltam de novo a uma original pureza.Assim esperamos.E no esperar encontrar. Sem procurar.

Unknown said...

Escreve mais...se faz favor