12/31/2008
feliz ano novo
Bebo o nosso café sozinha, não pude abrir a porta, sabes que não, mas fiquei na cozinha e fervi a água no fogão, não pus a chávena no microondas, isso não, o café no lume sabe diferente, é o que dizem, demora mais tempo, sim, mas eu acendi o gás e esperei, esperei e deixei o cheiro espalhar-se pelo corredor, fechei os olhos e deixei-me aquecer pelo borbulhar da cafeteira, na verdade o fogão foi só uma desculpa para ficares mais tempo, percebes?
Santa Apolónia
Restos de tempos em que as malas não tinham rodas...
11/29/2008
antes da estreia...
A mesa é só uma mesa. Até vir o homem da luz. Aí uma mesa pode ser um envelope bem vincado, um coração partido, uma mulher deitada com os braços abertos, com a cara escondida na penumbra do cotovelo.
Ninguém mexeu em nada, garanto-lhe, a mesa está onde sempre esteve, sim, foi o homem da luz que veio, sim, fica logo tudo diferente, não é?
11/28/2008
Coimbra, 27 de Novembro de 2008
Três batas brancas a correr pelos corredores pelas escadas pelo quarto, chegámos tarde.
Ele já dormia, num repouso sem ar de máscara quente, e eu olhava sempre para a luzinha que tentava acordar-lhe os olhos, nunca para os olhos, nem para a boca seca, nem para as memórias que lhe imaginei. Não lhe quis guardar a cara.
E o filho tinha uma súbita água a escorrer pelos lábios e pelo pescoço, e começou a andar mais devagar. É que tinha acabado de chegar e também chegou tarde.
(e guardei-lhe a cara, claro que sim...)
11/12/2008
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Telefonaram a dizer. Coimbra.
Ela riu a chorar. As outras mãos riram-se nos ombros dela.
Dois dias antes de não haver mãos.
11/11/2008
10/21/2008
10/13/2008
apagar a luz e apagar o resto
Tenho de pintar a janela, penso.
Arranco-vos da parede. Outros cabelos. As mãos pequeninas. Outras asas. Arranco as asas, e as rochas junto ao mar, os teus braços à minha volta dentro de água, o teu queixo metido com vergonha no meu pescoço, só mar à nossa volta, já nem te lembras e eu também não quero lembrar-me. Não quero lembrar-me de nada. Quero arrancar este pedaço como se arranca uma crosta do joelho, fica um buraco, um buraquinho, um sangue. Um botão vermelho. Um botão por cada dia. Acabaram-se-nos os dias, tu sabes não sabes?, desabotoo-vos da parede, digo-te até logo, até logo tu-tantos-nomes, consigo ver-me boiar nos olhos uma lagrimita de saudade do homem que partiu e que costumava mimar-me o corpo com mãos ternas, despreocupadas, vagabundas. És tu, sim, tu sabes... tu-tantos-nomes. Tu e os outros todos que eu sento como figurinhas de pau no meu parapeito, a vossa figura rígida que eu moldo, viro o vosso olhar para o meu corpo amolecido nesta cadeira, olhem para mim. Uma garrafa de vinho à minha frente. Uma não, duas. Não bebo, espero alguém para brindar comigo num copo gorduroso da cozinha, bebemos ao que vem aí e, com uma fisga, atiramos as figurinhas janela abaixo e eu desfaço-me numa gargalhada, uma gargalhada colossal! Desaparecem todos, ninguém saberá o que faço às escuras com a cara enterrada no colchão que se encharca. É que eu saber que estão aí é como um espinho de rosa encravado num qualquer lugar incómodo do corpo, vai furando mais a carne até ser parte dela, até não ser possível voltar a descobri-lo e arrancá-lo para sempre. É que eu saber que não estão aí encrava-se-me na garganta e faz-me engolir uma desilusão, um desamor...
Quando vos atirar lá para baixo pinto a janela. Para não encontrar, por acaso, nalguma manhã mais tranquila, alguma pegada vossa, empoada, bailarina, trocista.
(é que gosto tanto de vocês, é que estou em guerra só com as minhas memórias)
9/23/2008
tréguas ao teatro...
Aventurem-se. Subam ao palco com grandes laços de seda, sapatinhos de tule.
Aventurem-se, sejam a puta, o pedinte o nazi que espanca o preto. Sejam a puta, todos querem ser a puta, esse desalinho de rendas esburacadas e horas passadas no espelho do camarim, horas a acertar o traço negro, uma asa de corvo a cortar as pálpebras, o olhar tão perfeito, todos querem ser a puta, ensaiar a puta até cair, até ela cair até ela gemer ou até ela rir, uma gargalhada de saltos altos. Nunca a puta das pernas navalhadas, nunca a puta sem chuva onde ensaboar o cabelo, nunca a puta sem os lábios pintados, só mordidos por um homem filho da puta, tão cheio de amor, amor, ah o amor dos homens com moedas no bolso, com doces no bolso... Espanquem o preto, eu também sei a voz de tragédia que é precisa para espancar o preto, espanquem o preto mas tenham razão. Não espanquem o preto como se espanca um preto. Estão em palco, seja perfeito, seja perfeito! Nunca um homem a sério, antes homens camuflados de texto batido, homens remendados, homens mijados, homens com cheiro a sopa e hospício, onde? Ahh, não aqui, este mundo é de madeira, lava-se encera-se puxa-se o lustro, abrem-se as cortinas, veludo engomado cheio de pó de arroz, homens arrastados pela rua, velhos cheios de vinho caem batem com a cabeça no corrimão ao pé da igreja dos Anjos, queres vestir-te como eles não te esqueças do risco ao lado. Mundo de madeira, lava-se encera-se penteia-se. Não me venham entrar em palco armados em gente a sério, mijada, suada, ansiosa de mãos, ora essa, aqui é tudo a fingir.
Tragam figurino.
6/18/2008
Pedem-me que chore para a última fotografia e desfaz-se a blusa recortada em cartolina azul, um lago de tinta no meio do lençol.
1/16/2008
há cinco anos
Aos 15 anos quis ser grande. E ser grande eram umas calças aos quadrados e uns sapatos de camurça com atacadores… e andar sozinha quando chovia, e acabar a tarde numa casinha de chá, mesa para duas pessoas na varanda pequenina, chá de jasmim com flores a boiar e vapor.
Aos 15 anos era grande. Acordava num parapeito ao pé do mar e ouvia os pardais, ouvia as ondas, ouvia a panela cheia de aveia e maçã, ouvia a viola dela, ouvia Jorge Palma e Bach, ouvia folhas de papel de poemas grandes de poetas grandes. Acordava e a casa não era minha, era dela e do mar, portanto eu era grande, 15 anos que não interessavam mas só aquele dia, só aquela manhã, só aquela manhã eram os outros anos todos que eu precisava...
1/13/2008
teatro
Shakespeare chegou e eu estava de pijama.
Não faz mal. Ele vinha em papel...
Era uma vez um lugar com chão de madeira e pó em pedaços, cadeiras vazias, paredes pretas com circulos de lâmpadas, e não fazia mal se eu estivesse de pijama, Shakespeare chegava sempre e para ele eu tinha o cabelo ondulado a cair nos ombros, pestanas compridas e lábios vermelhos. E saltos altos, e gravata, podia ser mulher ou podia ser principe de uma ilha com deuses de flores e sal. Podia tentar...
Ele senta-se à minha frente e ri-se de mim. Eu sei, eu sei que não era sobre mim, nenhuma letra era sobre mim... Naquele tempo não haviam mulheres, haviam corpos de vestidos longos onde o vento se perdia a fazer saias de balão, corpos de cabelos longos onde o vento se amainava a romper flores amarelas, corpos de pés pequenos onde o vento se enterrava para florir em jasmins. Corpos que dormiam só com a pele, com as unhas, com um respirar baixinho... Ele ri-se da minha voz que não sabe cantar, o que ele escreveu era sobre uma criança de quinze anos e ela nunca teria a minha voz se alguma vez lesse como ele a desenhou no papel...
Shakespeare chegou e riu-se e eu gaguejei, atrapalhada.