Hoje o dia acordou assim, cheio de vento e folhas secas a roçar no chão da varanda, e eu soube que ia ser perfeito.
12/13/2009
Hypatia
Hoje o dia acordou assim, cheio de vento e folhas secas a roçar no chão da varanda, e eu soube que ia ser perfeito.
11/30/2009
Os dias agora mordem-me, enchem-me o agasalho de nódoas negras.
Quem inventou que não se pode voltar ao que já acabou? Que depois de hoje vem amanhã e que ontem só existe no pó das fotografias?
Será que todos eles, deitados nas suas camas e no seu respirar ofegante, sentem este miúdo que eu sinto dentro, trancado à força num quarto escuro de castigo sem entender porquê, quem inventou que temos de ser grandes, e quem nos ensinou a caber num corpo tão humilde de coisas magníficas, tão envergonhado de sonhos que nos esmagam quem foi que eu levo comigo de mão dada, tapo-lhe os olhos e tiro-lhe as meias, debaixo dos pés ramos aguçados, folhas que crepitam, um riachinho frio uma joaninha esmagada...
Sentes? Sentes?...
11/23/2009
3 quilos e 180 gramas
E não importa o que dizem, não importa que a barriga seja cortada, não importam os sacos de soro pendurados, não importa que à volta todos tenham máscaras e toucas verdes, não importa nada, nada tira a maravilha a um bebé pequenino que sai para o ar frio do dia e grita, nada tira a maravilha do choro da mãe ao ouvir o grito do seu bebé, nada nunca foi tão bonito como ver nascer um bebé.
11/17/2009
A estória dela
Em velha, ela sentava o neto no colo e tacteava-o no escuro, no seu escuro. E esperando, encostada na porta, ela não via nada.
11/13/2009
simples
Passar o dedo no fundo da panela e ser outra vez um miúdo lambuzado.
Aquecer os pés debaixo do aquecedor de óleo.
Enrolar o xaile no pescoço, apagar a luz e sair.
11/12/2009
11/08/2009
Ana
11/07/2009
11/06/2009
11/05/2009
a sagração da primavera
10/24/2009
10/22/2009
navegar é preciso
Paz que não sei descrever.
10/12/2009
O que se sente
A saudade sente-se por baixo do queixo, naquele pedaço de face que assentava no teu ombro e te cheirava e te sorvia o calor do corpo.
10/01/2009
9/24/2009
9/07/2009
às vezes fazer força para puxar a boca para cima, as costas para cima, as meias para cima e enlaçar os atacadores e sair para a rua. Fazer uma força fingida, um sorriso de palhaço cheio de vermelho, cheio de alfinetes para não cair, bem seguro às bochechas às orelhas para não se mexer do lugar, para nenhuma lágrima conseguir romper. E abrir bem os olhos para o vento entrar e secar os vidros molhados. E abrir bem os olhos, nos carros os meninos põe a mão de fora para brincar aos soldados com o vento, os campos de arroz envelhecem amarelos, a areia da praia tem conchinhas partidas como nós, o mar arredondou-lhes os espinhos, conchinhas macias agora...
9/02/2009
até já
Há uma árvore de mãos onde as nossas nunca vão perder-se, onde as nossas mãos suarão juntas, amarelas, vermelhas, queimando a parede de uma noite de vinho e risos demasiado altos, demasiados cheios de asas, demasiado novos... O teu chapéu castanho está na porta. Pacotinhos de açúcar. Papéis.
Era uma vez, acendeste velas num coração de prata e disseste-me
Abre os olhos...
A primeira vez que nevou foi contigo. A última vez que nevou foi contigo. A primeira vez que morei num sofá azul foi contigo, muitas vezes a minha roupa e a tua pingaram juntas no estendal, a segunda vez que amei amei-te, uma vez saimos juntos do comboio e tivémos medo de dar a mão, a última vez que fiz tudo foi contigo, parece-me, visto daqui... Tu num quadradinho de papel de cordel pendurado no nada, a última vez que me vi foi contigo. Olho agora, eu num quadradinho de papel de cordel pendurado, mais nada.
Tenho uma parede cheia de estórias em que tu querias que eu voasse. E eu era tão pequena e tão certa de conhecer todo o meu tamanho todos os meus cantos toda a força da minha voz e rasguei as nossas asas as nossas pernas os nossos pés os teus olhos o teu choro eu ri-me. Eu ri-me. Eu ri-me.
Os meus dedos deslizaram nos novelos como no teu cabelo e corri nas mãos um chapéu inteiro para ti, Quando nevar vais lembrar-te de mim? Aquece as orelhas com o meu chapéu, deixa-me sentir o teu cabelo, o teu cabelo é fino e loiro, o teu cabelo não cheira a nada, o teu cabelo pica-me as bochechas quando adormeço na tua almofada. O teu cabelo continua nas minhas mãos mesmo depois de teres ido embora. Não faz mal.
Desfio a tua cara na minha cabeça, os teus gestos, as tuas ninharias que não consigo chamar de nome nenhum, vou mais longe, quando éramos só eu e tu e despediamo-nos calados à porta do quarto e os teus braços pareciam ser parte do meu próprio calor, volto atrás, corro para a frente, não me lembro, vejo outra vez, revejo-te, revejo-me em ti e pinto peixinhos nas minhas bochechas molhadas com lápis de cera, é o que fazem as crianças, não é? Pintam estórias de princesas com lápis de cera...
Nós não cabemos aqui... Nós... nós, faz eco no que sobra desta folha em branco, nós não cabemos aqui, só o nosso respirar tinge a mesa como um tinteiro entornado e empapa-me as mãos, a gola da camisa, os olhos turvos como um aquário cheio de musgo e conchinhas pontiagudas. Há uma árvore onde caberemos, alimentada de olhos que lerão as nossas palavras, Uma mimosa, carregada de mãos, não poderemos ver mas crescerá, crescerá, alguém adormecerá na sua sombra...
Caberás numa caixa. Prometo-te.
9/01/2009
8/27/2009
8/24/2009
vinte e um anos
Enquanto não esqueço cresce-me musgo nos olhos e revejo incessante todos os detalhes que lembro de ti, mulher louca a balouçar numa cadeira ladainhas carcomidas pelos dentes e pelos lábios pendurados de água.
Pequeninos chapéus-de-chuva para as pestanas...
8/23/2009
e morreram felizes para sempre
… imaginar que a morte é um despedir de muitas mãos, uma carícia de lençóis sem um vinco, o sino das chávenas no armário quando a janela se abre de rompante e engoles o último ar ensolarado do quarto. Gostava de imaginar que a morte vem quando as cortinas se abrem, morrer olhada por muitos olhos que me aplaudem e choram e no fim me felicitam por morrer tão bela. Gostava que a morte chegasse naquele fio de cabelo que ficou fora do laço e que cai sobre o pescoço, que nada no meu corpo denunciasse o despedaçar eminente. Gostava que a morte chegasse só depois de fechar os olhos.
Não é.
8/06/2009
8/01/2009
(uma preguiça de pegar no lápis e escrevê-las...)
7/18/2009
Song of Childhood
When the child was a child
It walked with its arms swinging,
wanted the brook to be a river,
the river to be a torrent,
and this puddle to be the sea.
When the child was a child,
it didn’t know that it was a child,
everything was soulful,
and all souls were one.
When the child was a child,
it had no opinion about anything,
had no habits,
it often sat cross-legged,
took off running,
had a cowlick in its hair,
and made no faces when photographed.
When the child was a child,
It was the time for these questions:
Why am I me, and why not you?
Why am I here, and why not there?
When did time begin, and where does space end?
Is life under the sun not just a dream?
Is what I see and hear and smell
not just an illusion of a world before the world?
Given the facts of evil and people.
does evil really exist?
How can it be that I, who I am,
didn’t exist before I came to be,
and that, someday, I, who I am,
will no longer be who I am?
When the child was a child,
It choked on spinach, on peas, on rice pudding,
and on steamed cauliflower,
and eats all of those now, and not just because it has to.
When the child was a child,
it awoke once in a strange bed,
and now does so again and again.
Many people, then, seemed beautiful,
and now only a few do, by sheer luck.
It had visualized a clear image of Paradise,
and now can at most guess,
could not conceive of nothingness,
and shudders today at the thought.
When the child was a child,
It played with enthusiasm,
and, now, has just as much excitement as then,
but only when it concerns its work.
When the child was a child,
It was enough for it to eat an apple, … bread,
And so it is even now.
When the child was a child,
Berries filled its hand as only berries do,
and do even now,
Fresh walnuts made its tongue raw,
and do even now,
it had, on every mountaintop,
the longing for a higher mountain yet,
and in every city,
the longing for an even greater city,
and that is still so,
It reached for cherries in topmost branches of trees
with an elation it still has today,
has a shyness in front of strangers,
and has that even now.
It awaited the first snow,
And waits that way even now.
When the child was a child,
It threw a stick like a lance against a tree,
And it quivers there still today.
7/15/2009
A vida é certamente muito bela. Vejo-o.
Cada mendigo é belo como aquário abandonado ao musgo e às sementes.
Cada jarro de louça é belo como o silêncio das coisas que existem há muito tempo quietas num armário branco.
Cada pano de renda, ensopa-se de ar, fino como um brinquedo de pó, é belo, tão belo...
A louça suja, abandonada ao sol e ao tremor dos guardanapos amachucados, é bela como uma multidão barulhenta que molha o pés no mar.
A vida é certamente muito bela.
Vejo-o hoje.
7/08/2009
7/07/2009
Eu sabia-me. Sabia-me bem. As minhas costas nunca foram ossudas. Eram naquela fotografia. Eu era ossuda, assustada como um bambu...
Tu brincas com as minhas costas, as minhas costas cheias de sombras, são só papel agora, fotografia transformada em avião de folha que lanças sem medo de perder.
6/26/2009
Enfeito-me com folhos e flores, pinto-me olhos e bochechas, calço sapatos altos da minha mãe. A minha mãe há-de sempre calçar sapatos maiores que eu e o meu pé há-de escorregar neles até caber só num cantinho de atacadores. A minha mãe há-de ter sempre brincos e anéis numa caixa de madeira para eu encher os meus dedos de brincar, a minha mãe há-de sempre assustar todos os monstros debaixo da cama. Um dia a minha cara será antiga como a da minha mãe mas eu hei-de ser sempre infinitamente pequena e ela há-de infinitamente cuidar de mim e passar-me a mão no cabelo quando eu cair e esfolar os joelhos, um dia juntarei e minha mão à dela, sobre a dela, e serão igualmente carcomidas e manchadas de rascunhar a vida, mas a minha mão caberá sempre dentro da dela, enrolada, da mesma forma que cabia há muito tempo, quando ainda não era eu para mim e era apenas eu para ela.
O meu corpo esmigalhar-se-á.
Mas há um lugar onde serei sempre intacta.
mapa
Conheço a minha casa numa linha estreita. A minha casa é um carril que vai de Coimbra até abaixo, até ao mar. Sei como os eucaliptos e as casas pintadas de azulejo se tornam campos de arroz, cheios de nuvens a boiar neles, e como os campos de arroz se tornam ovelhas embrulhadas em lã, quentes debaixo do sol, lentas, e milho alto, verde, não amarelo, e trigo que brinca no vento como um cardume de peixes. E como o campo desaparece em janelas, tantas janelas altas janelas baixas, estradas, candeeiros acesos à noite que enchem as janelas de olhinhos abertos, olhinhos amarelos de gato. E como as janelas se vão abeirando do chão até sobrar só a minha janela do comboio cheia de terra ondulada, seca, onde imagino umbigos… e árvores, corcundas, antigas, a guardar ar mais fresco…
6/20/2009
Nele, ela via poucos anos, brincadeiras de berlindes, mãos sujas de areia, urtigas, bichinhos-de-conta. Ela pintou-se para ele. Ela sabia que mascarar-se acabaria assim, o som de uma fivela, uma colher para dois, um botão descosido na blusa.
Antes, quando dançava em pontas de pés... foi há muito tempo. Como se nunca.
Afiar facas na minha pele. Anda. Eu deixo-te.
6/03/2009
À noite fica ela. Ela alinha as chávenas que o dia inteiro foi perdendo na mesa, amacia as unhas com uma lima de cartão, descasca amendoins para uma folha de papel escrita e sobre o escrito riscada. Ela pensa no dia em que a cama ficou pequena para as suas pernas e passaram sorrir-lhe ou a chorar quando falava, a demorar-se à porta de casa quando falava. Ela pensa no dia em que se sentou no comboio e tocou pela primeira vez no chão com a ponta do sapato. Nunca antes tinha chegado com os pés ao fundo do banco... Nesse dia tinha uma roupa feia, uns sapatos de corda e uma camisa branca, e o pé caiu-lhe ao chão distraído. Nessa noite dobrou bem o corpo para caber na cama.
À noite ela deixou de escrever. Ela tem um lápis preto com que há muito tempo pintava os olhos de manhã, e à noite ela escreve-se uma cara antiga, ela lembra-se de quando aprendeu a andar com os pés no chão, as bochechas a testa atiraram-se também, numa paciência de linhas fundas, pele abaixo. À noite ela pinta-se, risca todas as linhas que antes não estavam lá para não se esquecer como era quando os seus olhos assentavam em quase nada. Quase nada.
6/01/2009
casa
5/24/2009
professores
Escrevi um abraço apertado a todos os que um dia me ensinaram na escola, bichos letras números, e devagarinho chegam-me as respostas, abraços apertados saídos de um tempo há muito tempo a lembrarem-me coisas que não esqueço. Era uma vez professores que sabiam o nosso nome, o som dos nossos sapatos a nossa letra num monte de folhas. E lá se pendura no meu olho a lágrima fácil...
Os pássaros cantam. O céu ainda escuro mas eles sabem, eles sabem, em breve será manhã. Os pássaros cantam-me boa noite, boa noite...
5/23/2009
abat-jour
Roubo-te o som que fazes quando libertas o perfume dos meus tornozelos, quando descobres o precipício das minhas meias.
Gosto de vestidos que deslizam pelas costas pela cintura pelas mãos, escorregadios, ásperos, pesados, vestidos que caem aos meus pés a correr quando decido sussurrar-te junto ao pescoço o que não adivinhas.
5/09/2009
pirilampos
Serão os meus pirilampos.
5/06/2009
Pedalo mais rápido e o vento passa-me as mãos debaixo do vestido. Poeticamente, digo-o.
Era um barzinho de embriaguez, casa de banho ao xadrez. Chamavam-lhe amor.
A mulher da praça tinha os olhos cor de folhas verdes vistas dentro de lentes de ambar e poucas palavras a rir, como as crianças em frente a adultos de salto alto curvados sobre as suas cabecinhas entrançadas.
Quando a menina corre o vestido fica para trás, pendurado no ar.
Dormir custa como um calo. Amanhã, amanhã, amanhã, aperta, aperta...
5/03/2009
Coimbra, queima das fitas 2009
4/28/2009
E há as listas de compras, os sacos de maçãs, as gavetas, o pão quente, os sapatos novos, o pijama debaixo da almofada, a varanda, os pés frios, as vendedoras de flores, a chuva, os dois bancos do comboio, o cabelo desgrenhado de manhã onde quero que te metas sem pedir permissão.
4/27/2009
O amor, pela Rita
"Olhava para as paredes sujas do pátio e não sabia se aquilo era histeria ou amor."
"Your skin is something that i'd stir into my tea"
4/25/2009
4/19/2009
4/16/2009
Suburbia Playtime, Maio 2005
4/13/2009
valsa de monstros
4/12/2009
páscoa
4/06/2009
Quando me deito já todos dormem às escuras.
A minha cama é pequena e durmo nela sozinha. Tenho bonecas e almofadas brancas que espiaram muita gente antes de mim, fitas de seda que se desfazem nos arranhões do tempo. Almofadas de muitos mortos, guardo-as comigo agora como um colecionador insaciável, respiro as estórias que escondem e adormeço nelas.
Esta não é a minha casa. A minha casa foram muitos quartos de cores diferentes, laranja, branco, rosas de pano e paus de chuva… Mas não te digo.
Digo-te que hei-de torturar-te mas sabes que não, não sabes? Sabes que estarei lá para apertar as tuas mãos e apertar-te o cabelo num laço e humedecer-te a boca e dormir aos pés da tua cama até respirares tranquila…
Foi o que escolhi. Ser mãos que adormecem.