À saída do cinema apertam-se os botões do casaco. Os cheiros misturam-se, perfume e terra, e brandy. Poderia dormir no cinema, afundada no veludo coçado de uma cadeira, um dedo de êxtase pendurado no lábio, ignoro o cabelo fugido do lenço, os olhos quietos na fita, metros e metros de fita, na tempestade da orquestra. Pertenceria ali, a pérola no lobo da orelha, as rosas brancas, os copos de pé alto, o cetim negro na cintura. As mãos do homem no piano furiosas, na pele furiosas, o cetim vincado, a manhã incolor de chuva... À saida do cinema demoro-me, fecho os olhos e respiro o último guincho do violino, pertenceria ali, a delicadeza de um papel de parede, frascos de vidro no toucador, ser uma mulher cheia de sonhar, uma mulher arrogante, dedos finos de linho que duvidam escondidos. À saida do cinema trago uma estória no corpo e talvez o meu rosto mude talvez o meu corpo se cubra de cetim negro, liso, e um chapéu de côco pequeno.
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