Vejo pelo vidro, o cirurgião demora a lavar as mãos, as suas mãos não tocam nada, nada mais, aguardam no ar, alguém traz as luvas, o cirurgião aguarda a sua entrada em palco e no fim pousa a faca e sai, agradece ao público e sai, o cirurgião não toca em nada. Eu não toco em nada, eu aguardo o acender das luzes, a última música para sair da sala sem tocar em nada, o ar quente repetitivo dentro da máscara. Eu corro eu tropeço eu sento-me e respiro fundo eu erro às vezes não me engano, eu sorrio eu engulo vontade de chorar, eu toco mãos àsperas e ouço o ar encher de folhagem um peito desapertado para mim, eu ouço o sangue correr, eu ouço o coração bater, bater, um tamborzinho longínquo. Eu ouço o primeiro choro de um bebé no frio de estar vivo. Eu chego cedo de livro na mão, sento-me num sofá, lá fora chove, demasiado cedo só os loucos deambulam entre as cadeiras e o miúdo que enche de água a máquina dos cafés. Escondo-me num canto e aqueço as pernas com o casaco, os loucos pedem uma borla no café e arrastam-se de volta ao quarto, no hospital todos os pijamas são iguais, todos os cabelos são iguais, sujos e amachucados, todas as caras são iguais, pequeninas e amachucadas. Terríveis os corpos cheios das suas velhices, cheios dos seus enganos, cheios de vergonha e eu, e nós invasores de todos os segredos bem guardados, as nossas mãos que desnudam tudo, as mãos do cirurgião que não tocam em nada, que despedaçam um corpo inteiro. Os olhos de todos os velhos são passarinhos molhados, eu engulo vontade de chorar e ouço-os respirar, encher o peito de folhagem sibilante, ouço o coração bater, tamborzinho longínquo, longínquo, perdido... E eu quero afundar-me no mais sujo de um homem e encontrar-lhe os olhos suplicantes, e apertar-lhe as mãos, e ouvir-lhe a vida desmoronada, escavar fundo o belo de um corpo apodrecido, senão como seríamos poetas.