12/21/2010


Menino Triste, lembras-te de sermos felizes quando chorávamos? Como se as lágrimas fossem pérolas de usar ao peito, ríamos de cara molhada.
Quando o coração ainda batia...

11/27/2010

Apaixono-me com a facilidade de um cão vadio a quem afagam a cabeça.

11/25/2010

Gonçalo

Estás tão quieto, aí na mesa entre o que te atarefa, eu olho para ti e levo tempo, demoro-me em ti. Partiremos... Partiremos em breve e esta mesa não será mais a nossa casa, colheres e chávenas de onde se desenha fumo e traços de café até à toalha, partiremos tão já a seguir quem nem terei tempo de olhar para ti e, naquele sorriso que se estica apenas no imaginar do meu rosto, saber que houve instantes em que, distraídos, pensámos as tardes iguais, agarrámos o copo com qualquer coisa mais entre os dedos, tivemos saudades nossas sem sequer saber o que isso é.

11/09/2010

intervalo

Gosto de ver-te fumar, pelo vidro do alpendre, a mão esticada no ar o fumo fino como os teus dedos, o teu cabelo sem medo do vento. Encostas as costas no corrimão e fumas e eu fecho os olhos, gosto de ver-te fumar.

10/30/2010

Flash

O velhote vende línguas da sogra nos repuxos das rodas dos carros, entalado entre o alcatrão e o chapéu torto de chuva. Parece que faz sol nos olhos dele.

10/05/2010

O frio

Música com pássaros.
Quando o vento se impacienta lá fora e sacode para os meus ombros a cortina lembro-me das chávenas penduradas na cozinha todos os dias e de como de manhã os pardais se aventuravam nas migalhas do jantar. Fugiam ao ouvir-me, pesada de sapatos, pela janela amarela nunca fechada. 
E a chuva lembra-me os peixes à porta da tua casa.

Lemonade

9/07/2010

feira da ladra

Longe quando caminhávamos juntas, subíamos ruas escorregadias de areia e carris, um pão uma pêra, montras fechadas de sapatos cheios de pó e aranhas adormecidas, os teus cabelos eram tão compridos e havia uma nódoa no meu vestido, o tempo não tinha tamanho nenhum. Longe quando coleccionávamos a vida dos outros, postais e grafonolas, e eu não sabia ser triste ou natural, eu e tu éramos uma extravagância, nada mais que isso.
Sonhamos as estradas nesta manhã parecida, eu sou silenciosa e agradeço as esmolas, tu chegas carregada dos mesmos sacos e de outra igual a ti. Sorrimos. Eu deixei cair uma nódoa na saia. E porque não...

8/25/2010


Em Setembro a tarde sob um abat-jour, o frio primeiro doce. Esta música aconteceu há muito tempo era eu enorme ardia uma chaminha no bolso da minha camisa.
Ao longe, longe, deixo-te ir, que mais...

8/11/2010

Beirut, Sudoeste 2010


A primeira música.
O êxtase total.

7/30/2010


Belo, meu belo, preferia quando tinha saudade, quando as fotografias eram terríveis silêncios muito longe das pontas dos meus dedos, quando cada som tinha de ser calado antes que eu começasse a chover pelo corredor...

7/27/2010


Desprende-se uma doçura no teu corpo depois de o cansaço te domar, silencioso, os dedos finalmente sem perícia de desabotoar-me as costas. Espero de ti o mesmo cuspo o mesmo interesse minucioso e curto que todas as coisas belas de colecionar, mas então a doçura no teu corpo, tão surpresa que ouso descansar a cabeça no calor da tua manga, esconder a cara toda no calor da tua manga, só um pouco, só enquanto é verdade...

7/16/2010

roubado do redondo



Do meu preferido...

7/08/2010


Pouco penso nestes tempos. Atiro-me ao rio como se fosse líquido e não me quebrasse o corpo, atiro-me do parapeito como se tivesse asas emprestadas de beija-flor. Que me importa que amanhã seja o dia em que te mostrarei quem sou sem farsa, passará depois logo a seguir logo um instante e certamente ficarei sozinha. Esbanjo a alma em coisas de nada... Vinho, pêssegos, pedaços de harpa no escuro quente do quarto. É pequeno o meu corpo ao lado de um corpo de homem, caminhamos lado a lado dou-te a mão, quero ser a tua criança, quero caber-te no canto do cotovelo e acreditar em ti como num herói, quero ser a tua criança adormecida nos lençóis tocada com a graça de um amor inexplicável pela minha pequenez de figura.

7/05/2010

a manhã

De manhã perturbo os bichos que dormem nos recantos da casa, criaturinhas silenciosas que partilham o podre das minhas gavetas e que fogem ao meu tactear cego.
Há uma dança de pássaros sobre os telhados, espreguiçam as asas em círculos vertiginosos, ensurdecedores, ocupam o céu todo...

7/03/2010

Sou uma tábua onde sentes coisas impossíveis, a manhã chega em silêncio para nós, chega sempre em silêncio para nós, tu és um búzio onde sinto coisas proibidas, ponho-te junto ao ouvido e contas-me de mim, cantas-me de marés em mim onde já balouçavas muito antes de eu chegar.
Fica.

6/23/2010

Atrás da porta posso ser um animalzinho só de pele, lânguido pelos cantos pelos bancos pelos tampos das mesas, suave como uma escama como um peixe transparente, um farelo de perfume que deixo colado na fechadura e que espreita silencioso o corredor. As tílias perdem pestanas amarelas pela rua, cheirosas, o som das folhas a passarem nos dedos dos rapazes que estudam no café, o tabaco que desenha sereias brancas, e os pássaros, os pássaros sempre de férias...

à espera...


...
así te amo porque no sé amar de otra manera,
sino así de este modo en que no soy ni eres,
tan cerca que tu mano sobre mi pecho es mía,
tan cerca que se cierran tus ojos con mi sueño.


Pablo Neruda

6/21/2010

Penso, num dia mau

quando eu for muito velha haverão homens que continuarão a ser imortais, e tudo o que sinto hoje será farsa maltrapilha.


6/19/2010

6/14/2010


Deixa-me pôr-te a mão na barriga. Hoje que o escuro cheira a tílias e a lua é um baloicinho amarelo, gigante, empoleirado nas chaminés.

6/08/2010

epifania


As calças sem amaciador ficam de pé sozinhas...


6/06/2010


Deixo escrito: tudo é tão bonito quando eles estão comigo.




6/03/2010

Sei o que fazes quando chegas a casa. Sei como tacteias o escuro, sei como o teu suor se mistura na luz impúdica que vem da rua até ao chão, sei como o chão é silencioso e te apanha o vestido escorregadio, sei como atas a boca para não te descobrirem, para não te ouvirem no teu esconderijo no teu segredo, sei como se ensopa o teu cabelo, como mordes fios de cabelo quando tentas não falar, sei como os teus músculos se encrispam, mulherzinha...

5/31/2010

Há um tempo para ficar quieta. Para recostar o corpo num sofá mole e fechar os olhos e sentir o cheiro dos frutos ainda verdes lentamente adultos debaixo do sol. Para descobrir sardas no nariz, conchas cheias de brincos e pedras verdes na gaveta, saquinhos de pano de ganchos e ervas secas, e as paredes são sempre tão cheias do que não ousamos contar a ninguém. Há um tempo para ficar sentada à mesa ver a luz mudar na rua, distraída, sem ver a luz mudar na rua, distraída, há funis em cordéis debaixo de toldos e cerejas nos becos, engraçado, funis em cordéis e cerejas, como descrevem bem a minha cidade.

5/17/2010

Álbum

Poderia viver só de belo, sentada na cadeira virada para as janelas a contar estrelas em cada vidro, apenas, ensurdecer de música, um copo de água com dedadas minuciosas.
Um dia houve em que os homens cantaram debaixo de lua e sal, garrafa na mão marinheiros, era eu ainda acabada de começar, cabeça desgrenhada de criança cheia de pó, longa viagem o cansaço caído no chão debaixo de lua e sal, vi gente dançar, vi gente dançar, vi gente lançar-se ao mar sem medo de ter corpo, vi gente dançar.
Repito-me. Em frente ao actor lembro quando também eu ardia e transpirava as luzes escuras do palco e a mentira era comovente como uma estória antiga. Quase verdade, não fora a luz demasiado bela, azul, as crianças penteadas em golas de renda, loucos com mãos de cetim, velhos trapezistas, pó de arroz em lufadas brancas nas cortinas... Volto a dizer, há música que não ouso escutar, é outono debaixo dela há risos debaixo dela sem sapatos nas folhas que se partem, quero partir para nunca mais voltar, sou um pássaro estilhaçado.

5/08/2010

Balada de Despedida do V ano Jurídico

Da primeira vez furei a multidão, era tão pequena, tão orgulhosa na minha capa negra. Fechei os olhos e sorri, tanto tempo pela frente ainda...
Hoje traço a capa e sei que em breve partirei. E cada música tem palavras que conheço bem, íntimas, aconchegadas em mim como a minha capa negra. Tu ouves mas não estás aqui, não sabes que não se respira até ao último acorde, medo que seja já a última vez.
Da próxima vez será a minha última serenata.

5/02/2010

faixa um

Esta música é tua, menino.
Quando daqui a muito tempo formos velhos esta música será tua, e a tua casa terá gatos e hortelã como hoje. A tua casa será azul como hoje e eu dentro dela com vinte anos, eu dentro dela adormecida no sofá, pequena num cantinho, a cabeça tombada em paz e o incenso a desfazer-se em rápidos véus, os gatos, a música que é tua. Tranquila casa, tranquila casa de mestre...

4/26/2010

Colégio Vasco da Gama

Na minha escola havia o homem com poucos dentes que cuidava as rosas, botas de borracha, e que nos levava em molhinhos de gente pequena a ver os coelhos e os porcos. Senhor Alexandre.
O senhor Elias era mosqueteiro de livro de espadas, bolsos cheios de trocos para chocolates, estórias de encantar garotos e mãos miúdas de podar galhinhos. Sabia o nome de todas as flores.
Havia um homem do lixo sujo e ridículo, não me lembro de gostar dele, não me lembro de nada na sua cara que não sempre o mesmo pó o mesmo riso a voz alta.
Na escola havia a senhora da sineta, uma sineta de verdade pesada e grande que nos empurrava de uma só vez para dentro da sala, havia pássaros e pinheiros e areia e formigas no chafariz e bichos de conta que escondíamos nos bolsos e tanta gente a quem nunca poderei apertar a mão e pedir desculpa pela minha então magra idade, ainda tão indiferente a tesouros.

4/15/2010

Mas afinal é a minha casa, a minha casa é um circulo de giz com sapatos e bonecas dentro e tem tantas janelas como se não tivesse paredes, só o céu e a chuva que de repente fez uma cortina de pano grosso em frente à mesa onde me sento. A minha casa tem tantas janelas como se fosse rua e não houvesse janela nenhuma, só o tremer do chão com a passagem de um autocarro, a voz do homem do lixo à meia-noite e um bocadinho mais, a trovoada.
Chove sem frio. Desmoronam-se coisas barulhentas no céu. As cidades fazem silêncio nos dias de trovoada...
Vou sentir falta da minha casa, quando daqui a pouco me for embora.

Sonhos





4/12/2010

Deito-me cedo. Nada mais me espera depois de fechar a porta de casa. O pó dos livros. Os cactos sobrevivem no meu alheamento. O pão que como a olhar a rua, a noite a chegar aos vidros dos carros.
O silêncio das coisas que são nossas e que não nos incomodam o adormecer.
Na minha rua alguém toca saxofone e as árvores são velhas e estão em flor.
Um dia partirei e terei de inventar tudo de novo. Erguer a minha casa do pó. Escolho um figurino e todos acreditarão. Dar a mão um estranho. Espero partir, partir...
Amargo na boca... Por isso apago a luz e deito-me cedo.

3/24/2010

Os velhos






são um livro de estórias.
O hospital está cheio de estórias assim.

3/05/2010

Alice in wonderland

Antes do pequeno-almoço acredito em pelo menos seis coisas impossíveis:

A Lua quando cresce é um sorrisinho de gato matreiro
A Lua cheia é um lencinho de renda que voou
Durante a noite as bonecas brincam sem eu ver
O nevoeiro é o sol vestido de tules de noiva
Nos relógios de cuco há alguém pequenino que assusta o pássaro às horas certas
Amanhã passarei o exame de condução.

3/03/2010

à noitinha




Fechem os olhos...

2/19/2010

"Ana, o que é que eu te posso dizer..."

O meu instrutor.
Eu realmente não sei conduzir.
Exame a 5 de Março.

2/16/2010

a menina no banco de trás

Vejo pelo vidro, o cirurgião demora a lavar as mãos, as suas mãos não tocam nada, nada mais, aguardam no ar, alguém traz as luvas, o cirurgião aguarda a sua entrada em palco e no fim pousa a faca e sai, agradece ao público e sai, o cirurgião não toca em nada. Eu não toco em nada, eu aguardo o acender das luzes, a última música para sair da sala sem tocar em nada, o ar quente repetitivo dentro da máscara. Eu corro eu tropeço eu sento-me e respiro fundo eu erro às vezes não me engano, eu sorrio eu engulo vontade de chorar, eu toco mãos àsperas e ouço o ar encher de folhagem um peito desapertado para mim, eu ouço o sangue correr, eu ouço o coração bater, bater, um tamborzinho longínquo. Eu ouço o primeiro choro de um bebé no frio de estar vivo. Eu chego cedo de livro na mão, sento-me num sofá, lá fora chove, demasiado cedo só os loucos deambulam entre as cadeiras e o miúdo que enche de água a máquina dos cafés. Escondo-me num canto e aqueço as pernas com o casaco, os loucos pedem uma borla no café e arrastam-se de volta ao quarto, no hospital todos os pijamas são iguais, todos os cabelos são iguais, sujos e amachucados, todas as caras são iguais, pequeninas e amachucadas. Terríveis os corpos cheios das suas velhices, cheios dos seus enganos, cheios de vergonha e eu, e nós invasores de todos os segredos bem guardados, as nossas mãos que desnudam tudo, as mãos do cirurgião que não tocam em nada, que despedaçam um corpo inteiro. Os olhos de todos os velhos são passarinhos molhados, eu engulo vontade de chorar e ouço-os respirar, encher o peito de folhagem sibilante, ouço o coração bater, tamborzinho longínquo, longínquo, perdido... E eu quero afundar-me no mais sujo de um homem e encontrar-lhe os olhos suplicantes, e apertar-lhe as mãos, e ouvir-lhe a vida desmoronada, escavar fundo o belo de um corpo apodrecido, senão como seríamos poetas.

1/26/2010

Espelho Meu


Eu!
Eu!
Eu!

Sou eu!

Sou
eu?...

1/22/2010

Eu tenho de estudar.
Eu tenho de sair para jantar numa sala cheia de cigarros.
Demoro-me num copo de cerveja e numa risada sem importância.
Demoro-me mais.
Eu tenho de estudar.
Eu encontrei quem me faz rir e demoro-me mais numa garfada de bolo.
Eu tenho de estudar.
Mas encosto o corpo na cadeira e conto histórias mirabolantes a uma plateia de olhos esquecidos de terem de estudar. Eu tenho de estudar.
Mas a música tão bonita.
Mas o novelo de lã caido junto da cama.
Mas os livros cheiram a estórias.
Mas maçãs na prateleira da cozinha.
Mas vestidos para amanhã no armário, tantos.
Mas homens e gatos em janelas lá fora.
Mas ainda é tão cedo.
Mas o tempo é tão rápido que nem chego a percebê-lo.
Mas eu tenho de estudar.
E agora?

1/21/2010

parabéns

Hoje reencontrei o postal. Dentro da cabine ninguém telefona para Paris, a Dona Marta diz que está farta, Outubrodedoismilequatro.
Hoje toquei o meu velho amigo, cordas roucas velhas. Qualquer coisa remexe-se dentro dos meus olhos, um inverno um ramo seco torcido, um sorriso de velho nú envergonhado, umas bochechas de menina pintadas com um coto de baton.
Hoje reencontrei o postal, às vezes tudo muda e nós ainda distraidos dentro de postais antigos.