Ela fecha a porta e jura nunca mais te reconhecer na rua, jura nunca mais hesitar os dedos dela nos teus, jura odiar o umbigo dela nas tuas costas. E tu acreditas.
1/31/2009
A boleia
Ela fecha a porta e jura nunca mais te reconhecer na rua, jura nunca mais hesitar os dedos dela nos teus, jura odiar o umbigo dela nas tuas costas. E tu acreditas.
As camélias são flores cheias de solidão e doçura,as camélias guardam toda a chuva e frio de janeiro mas acordam brancas e macias como bochechas de menina. A minha flor está lá fora sozinha, e ouço o vento troçar dela dizer-lhe que é pequenina que vai arranhar-lhe os olhos fechados que vai arrancar-lhe o perfume dos dedos...
O que fizeste com o meu corpo? O meu corpo serpenteava por entre os peixes e encontrava nenúfares para pousar os pés, o meu corpo serpenteava entre o teu corpo e tínhamos escamas reluzentes e a chuva era bem vinda na nossa janela e deixávamos que ela nos molhasse os cabelos, o teu corpo era um lenço no meu corpo o teu corpo enchia-me de tristeza, era morno e acolhedor como um ninho e eu sabia que um dia o vento chegaria desvairado para levar-te com ele, por isso imagino que o teu corpo se enlaça na minha flor e lhe sussurra cantigas de embalar, a minha flor é doce e só e o teu corpo é feito de linho é feito de terra soalheira, o teu corpo levou-me com ele e a minha flor é nossa, as nossas mãos agarradas há tanto tempo riscaram um ramo verde, e a nossa flor é doce e só...
1/30/2009
o reclame
Ontem de manhã a loja do cidadão abriu às oito e meia. Às nove da manhã a maquina de senhas para levantar o cartão de cidadão tinha uma folha colada: "Por motivo de avaria no sistema informático o serviço encontra-se atrasado". Foi a terceira vez que dei com aquela etiquetazinha atenciosa, mas nunca pensei que lá estivesse logo pela manhã, com o computador acabadinho de acordar... Noutro canto uma velhota tentava pagar a electricidade com um homem que namorava no computador e que a mandava para uma máquina de pagamentos que ela não sabia domar. Estava desejoso de continuar a sorrir para o computador e o raio da velhota que não percebia nada de máquinas sempre a reclamar por ajuda... Entretanto, uma mulher loira de chapéu de cobra chegou acompanhada de um segurança e sentou-se ao balcão para ser atendida, sem tirar senha, sem se sentar primeiro, como todos os outros ensonados, nas cadeiras de espera. Perguntei-me porquê e apeteceu-me morder-lhe a cobra do chapéu enquanto ela se aconchegava de perna cruzada na cadeira ao balcão, cheia de sorrisos que só existem na cara dos que não esperam e não se atrasam para o emprego...
Não era nada disto que eu queria dizer, mas o telejornal só acabou agora e o que eu tinha para dizer era muito mais dificil.
1/27/2009
1/24/2009
dançar...
1/21/2009
1/20/2009
1/15/2009
caril
Quando cozinho as minhas mãos cheiram a índias e aipos cortados, e a lume. Quando cozinho as minhas mãos cheiram a vozes em volta da mesa, cheiram a crianças aconchegadas à noite na cama, cheiram a um copo de vinho contigo antes de a manhã chegar. Quando cozinho aproximo as mãos das narinas e inspiro o aconchego da comida, e sei-me velha junto à minha pedra, com a cebola e o azeite alinhados, e aproximo as minhas mãos do teu rosto e tu sabes que sou eu, cheiras o aconchego em mim.
Hoje cozinhei para ti.
1/14/2009
o belo e a monstra
1/09/2009
Mas se esperar, hei-de fazer-te chá quando ficares doente, hei-de sentar-me na cama até que adormeças e hei-de tirar-te as dores do corpo, e hei-de encontrar flores no inverno, para ti. Porque te amo.
1/08/2009
1/07/2009
EXTRAVAGÂNCIAS
Não saio sem escolher bem os sapatos, têm de ser os sapatos perfeitos, bem vincados e com atacadores, um bocadinho sujos, um bocadinho tortos da idade, um bocadinho idiotas. Não podem ser uns sapatos tirados do cesto ao acaso, não, têm de ser cuidadosamente feios e fora de moda, cuidadosamente fora de prazo para os olhos, cuidadosamente deliciosos, para, quando cruzar a perna no sofá do café com o meu livro aberto e a caneta empinada a riscar página atrás de página, o rapaz barbudo e com óculinhos redondos, que aproveitou das velharias do pai, olhar para mim uns segundos e pensar quem será aquela que lê tão quieta, com uns sapatos tão estudiosamente extravagantes...
1/05/2009
für dich
1/02/2009
Vou fechar os olhos e deixar o novo ano chegar. Ver como é. Não espero nada. De manhã lavo o cabelo e ponho as botas do costume e a mala às costas e nem me lembro que é janeiro, hei-de continuar a não ter para quem escrever tenho é este buraco dentro, que nem é preto é só um buraco como se este ano não tivesse sido meu, um buraco que quero espalhar por uma pilha de folhas de papel mas não consigo porque este ano não foi meu, não sei o que dizer. Como se tivesse a boca presa com adesivo, chove agora, chove muito mas há sol e os vidros ficam pingados e as casas de lisboa têm jardins na parte de trás e escadas musguentas e se me despir no quarto todos podem ver-me por isso desço a cortina antes de mudar de sapatos, não quero que me vejam os dedos dos pés, são um segredo bem guardado, não quero que saibas por onde andei, não quero que vejas que ontem não dormi em casa, ias agarrar-me nos pés e lamber o resto de chá que bebi em segredo numa rua de casas podres e depois havias de cuspi-lo e deixar-me sozinha na cama e eu não quero dormir sozinha, fica comigo mesmo que não consiga lembrar-me das noites, nem da tua cara, e acordo e passo dias a devorar-te as expressões e o cabelo e o teu cheiro e nunca me lembro, não consigo ver-te e não me lembro do que me disseste ontem antes de fechar os olhos. Não sei como te conheci, sei que me enlouqueceste e que fugi de casa contigo, prometi-me uma varanda cheia de vasos e as tuas mãos a cortar-me o bife à mesa, prometi-me os teus olhos sempre cheios de açúcar e cachos de uvas para a sobremesa e agora não gosto do escuro porque me esqueço de ti assim que as luzes se apagam. Minto. Gosto do escuro porque não tenho de viver contigo…