Cresci com os pés sujos e cortados da madeira. Cresci enrolada em trapos e gaitas de foles, cresci molhada de suor e com a cara escondida em cabelos compridos e envergonhados, cresci debruçada no balcão da comida onde vinhas encontrar-me sempre a cheirar a maçãs e açúcar, cresci a adormecer de madrugada com o coração a bombear danças furiosas nas minhas pernas, a lavar as mãos numa poça de água e a ver estrelas cadentes sob o carvalhal. Cresci entre saias rodadas e sonhos ansiosos de pés mais magoados por danças e caminhadas, e cabelos mais compridos para esconder a minha cara envergonhada e dedos mais cheirosos de maçãs e açucar. Cresci e um dia entrei nua na água gelada e vi duas libelinhas azuis, com o coração a bombear-lhe danças furiosas nas asas, e quis ser como elas...
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