1/15/2009

caril

Como estava sozinha em casa deixei-me ficar a ouvir música alto. Música turca, cheia de ruas estreitas e lenços pendurados. E cozinhei caril. Antes de cozinhar alinho na pedra a manteiga, a carne, o pimento, a tábua de madeira, as duas facas, as natas e os coentros, a cebola, um copo de água. Depois, só depois começo. E a primeira coisa é o cheiro do refogado, doce e quente, e começo a sorrir para a música e sinto nas mãos a carne fria e as sementes do pimento e o áspero da faca na tábua. A panela borbulha e aquece-me as mãos, deixo escorregar o caril entre as pontas dos dedos e o ar cheira de repente a amarelo.
Quando cozinho as minhas mãos cheiram a índias e aipos cortados, e a lume. Quando cozinho as minhas mãos cheiram a vozes em volta da mesa, cheiram a crianças aconchegadas à noite na cama, cheiram a um copo de vinho contigo antes de a manhã chegar. Quando cozinho aproximo as mãos das narinas e inspiro o aconchego da comida, e sei-me velha junto à minha pedra, com a cebola e o azeite alinhados, e aproximo as minhas mãos do teu rosto e tu sabes que sou eu, cheiras o aconchego em mim.

Hoje cozinhei para ti.

2 comments:

Catarina said...

que decrição mais bonita. Vou pensar nisso da próxima vez que cozinhar :)

(sou a Catarina grande dos Reticências, já agora, gosto muito da tuas palavras Carolina, sabem a algodão-doce quando lidas.)

Catarina said...
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