1/07/2009

EXTRAVAGÂNCIAS

Puxo o livro para dentro da mala e preparo-me para sair.
Não saio sem escolher bem os sapatos, têm de ser os sapatos perfeitos, bem vincados e com atacadores, um bocadinho sujos, um bocadinho tortos da idade, um bocadinho idiotas. Não podem ser uns sapatos tirados do cesto ao acaso, não, têm de ser cuidadosamente feios e fora de moda, cuidadosamente fora de prazo para os olhos, cuidadosamente deliciosos, para, quando cruzar a perna no sofá do café com o meu livro aberto e a caneta empinada a riscar página atrás de página, o rapaz barbudo e com óculinhos redondos, que aproveitou das velharias do pai, olhar para mim uns segundos e pensar quem será aquela que lê tão quieta, com uns sapatos tão estudiosamente extravagantes...

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