1/31/2009

A boleia

Se a levares no carro, ela vai brincar com os óculos de sol cor-de-laranja, vai rir-se para ti e ver-se no espelhinho, vai ajeitar-te o cabelo e depois hesitar os dedos dela nos teus dedos. Vai ficar séria, depois, e olhar sozinha pela janela a pensar em coisas que não sabes. Vai encostar o nariz no vidro e fazer figurinhas de vapor com o dedo e não vais poder ver-lhe a cara, não vais poder ver os pingos a escorrer do queixo. Depois vai brincar com os óculos de sol cor-de-laranja e vai rir-se para ti e ver-se no espelhinho, vai trocar o CD, ela que costumava zangar-se quando pedias para escolher a música, e vai deixar ficar os óculos de sol a disfarçar os olhos vermelhos. Tu vais conduzir o carro e olhar para o relógio para saber quanto tempo falta até que tudo se desfaça como uma estória de jornal na água de um alguidar, ela não precisa do relógio porque a estrada arranha-a como se ela fosse a roda sempre a girar, quando sentir a curva a chegar vai pousar os óculos e esconder as mãos entre as pernas e morder o lábio de baixo para não chorar. Ela conhece-te... Sabe que não voltará a ver-se, no espelhinho, com os óculos de sol cor-de-laranja.
Ela fecha a porta e jura nunca mais te reconhecer na rua, jura nunca mais hesitar os dedos dela nos teus, jura odiar o umbigo dela nas tuas costas. E tu acreditas.

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