8/27/2009

adultos

Ela perguntou:
És feliz?
Ela respondeu:
Sim.
Olhava para há muito tempo...

8/24/2009

vinte e um anos

Eu sei que esquecerei. Eu sei...
Enquanto não esqueço cresce-me musgo nos olhos e revejo incessante todos os detalhes que lembro de ti, mulher louca a balouçar numa cadeira ladainhas carcomidas pelos dentes e pelos lábios pendurados de água.

Pequeninos chapéus-de-chuva para as pestanas...

8/23/2009

e morreram felizes para sempre

… imaginar que a morte é um despedir de muitas mãos, uma carícia de lençóis sem um vinco, o sino das chávenas no armário quando a janela se abre de rompante e engoles o último ar ensolarado do quarto. Gostava de imaginar que a morte vem quando as cortinas se abrem, morrer olhada por muitos olhos que me aplaudem e choram e no fim me felicitam por morrer tão bela. Gostava que a morte chegasse naquele fio de cabelo que ficou fora do laço e que cai sobre o pescoço, que nada no meu corpo denunciasse o despedaçar eminente. Gostava que a morte chegasse só depois de fechar os olhos.

Não é.

8/06/2009

A música tem um arrulhar de bichos em volta de lâmpadas, um copo com uma azeitona a boiar. Mas eu estava muito longe... o meu vestido era um lençol sobre os ombros e a ponta do queixo. Havia duas molduras na parede, vazias, não me decidia quem pôr à cabeceira da cama, alguém que olhe por mim, alguém para eu olhar... Eu imaginava o trote lento do comboio, sozinha tão sozinha uma janela imensa só para mim como um tapete onde afundar-me de cansaço, nomes de cidades em tabuletas pequenos países das maravilhas, a minha cabeça encostada ao vidro a escorregar de sono, desenho um sorriso de outro para mim no molhado da janela.

8/01/2009

Se eu pudesse fotografar dentro da minha cabeça... guardaria todas as palavras belas que me roubam tempo ao sono numa caixinha de arquivos, biombo, botão, azul, jarro, embalar, boneca, pérola, perfume, e um dia escreveria uma estória, um castelo de letras em equilíbrio numa folha de papel.

(uma preguiça de pegar no lápis e escrevê-las...)