Aventurem-se. Subam ao palco com grandes laços de seda, sapatinhos de tule.
Aventurem-se, sejam a puta, o pedinte o nazi que espanca o preto. Sejam a puta, todos querem ser a puta, esse desalinho de rendas esburacadas e horas passadas no espelho do camarim, horas a acertar o traço negro, uma asa de corvo a cortar as pálpebras, o olhar tão perfeito, todos querem ser a puta, ensaiar a puta até cair, até ela cair até ela gemer ou até ela rir, uma gargalhada de saltos altos. Nunca a puta das pernas navalhadas, nunca a puta sem chuva onde ensaboar o cabelo, nunca a puta sem os lábios pintados, só mordidos por um homem filho da puta, tão cheio de amor, amor, ah o amor dos homens com moedas no bolso, com doces no bolso... Espanquem o preto, eu também sei a voz de tragédia que é precisa para espancar o preto, espanquem o preto mas tenham razão. Não espanquem o preto como se espanca um preto. Estão em palco, seja perfeito, seja perfeito! Nunca um homem a sério, antes homens camuflados de texto batido, homens remendados, homens mijados, homens com cheiro a sopa e hospício, onde? Ahh, não aqui, este mundo é de madeira, lava-se encera-se puxa-se o lustro, abrem-se as cortinas, veludo engomado cheio de pó de arroz, homens arrastados pela rua, velhos cheios de vinho caem batem com a cabeça no corrimão ao pé da igreja dos Anjos, queres vestir-te como eles não te esqueças do risco ao lado. Mundo de madeira, lava-se encera-se penteia-se. Não me venham entrar em palco armados em gente a sério, mijada, suada, ansiosa de mãos, ora essa, aqui é tudo a fingir.
Tragam figurino.