Dois minutos antes estava espalmada no chão e a bicicleta rodava sozinha no ar.
Gosto de andar de bicicleta e de esfolar os joelhos.
Imagino hoje as casas dos velhos, carregadas de fotografias numa exaustão de não-esquecer, de ver crescer netos emoldurados em vidros sempre encolhidos. Imagino hoje, o meu xaile seca no aquecedor, também as luvas. O meu xaile estava molhado da neve, a neve não cai, a neve balouça até ao chão e quando passa em frente a uma lâmpada demora mais tempo e improvisa piruetas para se fazer bonita. Antes não tinha xaile, encontrei-o antes de chegar e trouxe-o enrolado no pescoço, e agora a neve cai sempre em mim e na lã do xaile, e no meu cabelo escorrido de água, até sermos uma figura pequena polvilhada de açúcar. Aconchego-me nele, aqueço-o com a minha boca escondida, estendo-o pelas costas quando espreito pela janela para sorrir às galinhas e ao gatinho molhado e frio. E faz um silêncio, um silêncio em que a chuva é branca e boceja antes de cair, em que os pássaros bicam a lama e o vento fica quieto, como nas aguarelas das estórias de adormecer polegarzinhas. E imagino a minha casa de velha, carregada de fotografias numa exaustão de não-esquecer, de ver crescer netos emoldurados em vidros sempre encolhidos. E o meu xaile num banquinho, como outros terão bules ou vestidos de noiva, numa exaustão de não esquecer a neve na língua quando a bicicleta ainda me fugia das mãos, cortando rápida o ar esmigalhado de gelo.