2/26/2009

walking with the bike














Dois minutos antes estava espalmada no chão e a bicicleta rodava sozinha no ar.

Gosto de andar de bicicleta e de esfolar os joelhos.

2/25/2009

depois de escrever fica um vazio... como se já tivesse dito tudo, para sempre.
CHEGA DE ESCREVER AS ESTÓRIAS FORA DE PRAZO.
sou uma cabrinha, não sou?
sou uma cabrinha fora de prazo.
e as andorinhas partiram com a primavera.

apetece-me um copo de vinho.
mas não se bebe vinho em casa dos meus pais.
nem se fuma às escondidas com a minha boca.

adeus cortina de veludo cheia de luzes penduradas .
olá casaquinho branco.
comprido.
manchado.
deus pequenino de velhas sem cabelo e homens de pantufas.
dobrem-se nas minhas pernas e tragam pequeninos brindes.
não mais vos encantarei com vestidos emprestados
mas um dia ainda poderei ouvir-vos o coração bater...

2/24/2009

Havia sempre silêncio, só um momento, quando o comboio arrancava ou enquanto encaixava a palhinha no furo do copo, rabugenta, então havia um silêncio e tu paravas o meu rosto. Tentava imaginar a minha cara como se pudesse vê-la, a ponta da língua de fora a tricotar, o lábio de baixo mordido, a boca aberta a olhar as caixinhas de música em forma de carroussel, os aviões de madeira, os olhos fechados enquanto lias poemas embriagado de mim, com a voz esfarelada de mim. Havia sempre o teu silêncio de olhar para mim, como se um fio de formigas passasse nas minhas bochechas, paravas e olhavas para mim minucioso, calado, e sempre soube que esse silêncio era meu, era o teu silêncio de inventar-me, era o teu silêncio de conhecer-me outra vez. E depois voltavas ao que quer que fosse que fazias antes de eu te ter distraído sem querer. Mas eu sabia…

2/10/2009


Imagino hoje as casas dos velhos, carregadas de fotografias numa exaustão de não-esquecer, de ver crescer netos emoldurados em vidros sempre encolhidos. Imagino hoje, o meu xaile seca no aquecedor, também as luvas. O meu xaile estava molhado da neve, a neve não cai, a neve balouça até ao chão e quando passa em frente a uma lâmpada demora mais tempo e improvisa piruetas para se fazer bonita. Antes não tinha xaile, encontrei-o antes de chegar e trouxe-o enrolado no pescoço, e agora a neve cai sempre em mim e na lã do xaile, e no meu cabelo escorrido de água, até sermos uma figura pequena polvilhada de açúcar. Aconchego-me nele, aqueço-o com a minha boca escondida, estendo-o pelas costas quando espreito pela janela para sorrir às galinhas e ao gatinho molhado e frio. E faz um silêncio, um silêncio em que a chuva é branca e boceja antes de cair, em que os pássaros bicam a lama e o vento fica quieto, como nas aguarelas das estórias de adormecer polegarzinhas. E imagino a minha casa de velha, carregada de fotografias numa exaustão de não-esquecer, de ver crescer netos emoldurados em vidros sempre encolhidos. E o meu xaile num banquinho, como outros terão bules ou vestidos de noiva, numa exaustão de não esquecer a neve na língua quando a bicicleta ainda me fugia das mãos, cortando rápida o ar esmigalhado de gelo.

2/05/2009