5/25/2019


O teu pai foi-se enquanto eu bebia sake naquele restaurante com portas de papel. Nunca percebi o chão desse lugar… feito de esteiras, áspero e sujo, capaz de guardar todas as pegadas que ali se alimentam e nelas escamas incontáveis tornadas parte da trama, da porta até às mesas desenhando caminhos de sombra indiferentes às lâmpadas e à rua.
O teu pai foi-se enquanto eu bebia sake e enchia a barriga de peixinhos e arroz branco, enquanto agitava no ar as mãos e falava talvez alto demais, tantos meses em casa a ser pouco mais que eu mesma e naquele dia finalmente um vestido comprido, um decote comprido, um copo a mais, uma risada a mais, e a sensação de o mundo ser néon e olhar para mim. O teu pai foi-se neste momento, eu não estava feliz nem triste, não pensei nisso, estava ali a falar alto, a ser diferente de mim como se a vida pudesse nunca ter fim e o tempo pudesse ser gasto nessas insignificâncias de mudar de pele.
O teu pai foi-se e parece que toda a gente estava na rua a beber sake, ou gin, ou outra distração qualquer, o teu pai foi-se e o mundo não parou, nem eu sequer parei para olhar as esteiras do chão do restaurante, podia ter tido essa atenção aos detalhes mas não, só pensei nelas quando já estava sentada no carro, encalorada do álcool, e peguei no telemóvel enquanto rodava a outra mão no volante. Não esperava

as tuas palavras.

O rádio de repente silêncio, os carros à minha volta rápidos demais, carros por todo o lado e a minha cabeça a ver só a cara do teu pai, mais estrada nenhuma. Não fui nem capaz de chorar, eu tão em lágrimas ainda dias antes com a ideia do teu pai, com as lembranças do teu pai, tão parecido contigo nas fotografias a preto e branco de quando tinha a tua idade e estava longe de ir. O teu pai foi-se e portanto levei-te no carro, como podia deixar-te sozinho sem o teu pai, foste sentado ao meu lado todo o caminho até casa, fomos em silêncio e eu pensei nas esteiras do restaurante com portas de papel, tão leve como se pudesse soprá-lo e fazê-lo desaparecer, as esteiras escuras nos espaços entre as mesas onde gente entra e sai deixando a história invisível e suja dos seus sapatos. Porque é que o teu pai tinha de ir? Para que te sentasses no meu carro mais uma vez? Os dois tão cheios de lágrimas valentemente poupadas como era nosso costume com qualquer filme ou tragédia. Aposto que o teu pai fez de propósito… para que não te perdesses. De mim, digo. Eu sei que nunca me perderia de ti mas tu sempre foste de viagens grandes e tens as malas feitas para partir, outra vez. Aposto que o teu pai ia gostar de saber que me embebedei enquanto ele se ia e que desse voo saíste tu, direto para o meu carro, em silêncio, como quando éramos miúdos e de repente o destino nos juntou para que soubéssemos que, algures no mundo, havia alguém que sabia rir e chorar exatamente dessa maneira.

O teu pai foi-se enquanto eu bebia sake, era de noite e o calor só veio no dia seguinte. Ainda bem, como ele ia odiar que fosse Verão sem ele...

5/05/2019

Sonhei contigo.
A tua casa era um casarão velho de humidade, uma porta cheia de gemidos, vidros fantasmagóricos descansados em janelas ressequidas e escamas de tinta sem cor. Na entrada, uma roseira de flores pequeninas, folhas pequeninas, tantas em ramos imensos nunca penteados.
Parecia que vivias logo ali, a tua vida acumulava-se toda ao rodar da porta num caos de brilhos e sujo. Na sala grande, entre sofás de veludo escondidos por lençóis pardos e aranhas, cómodas de detalhes incertos nas sombras e na confusão, mesinhas escuras e coxas, havia tapetes com cores inesperadas, cheias de viagens, copos de vinho ainda frescos, fotografias tuas e fotografias de gente morta, pratas de chocolates, brinquedos de madeira com sorrisinhos aterradores, xailes de lã mais ou menos inteiros, meias sem par, cadernos, bolachas esfareladas, auscultadores de vários tamanhos, chávenas com desenhos de primavera e café, caixas vazias de pizza, candeeiros altos e abat-jours amachucados cheios de franjinhas e fitas, tantas coisas cada vez mais pequenas que se perdiam dos meus olhos... A luz era uma coisa sem brilho, riscos de claridade da rua quase brancos de pó. 
Do outro lado da confusão, uma porta. E na porta, tu. E tu eras simples. Tu eras linda. Pés pequenos e secos, tornozelos tão finos, punhos tão finos, pernas a pedir bocas e boca a pedir dedos, morangos, chocolates, a fome toda. Apareceste só de pele e camisola, uma núvem de lã grande demais para ti. Sorrias só com um canto da boca enquanto esperavas que eu te encontrasse no meio das bugigangas. A tua cabeça encostada à porta, cabelo nenhum, os teus ombros tranquilos sob uns brincos de ouro grandes demais. Esperavas. Quando te vi não fiquei surpreendido, eras mais uma tralhinha naquela sala, adorável, silenciosa, coisa de colecção, estava ali por ti e quando te atirei para cima de uma almofada o teu corpo levantou uma núvem de pó e penas e eu fodi-te. Fodi-te até colecionar o teu corpo todo, até o teu corpo estar molhado e gelado e sujo como o resto da sala. Quando me cansei de ti, puxaste a almofada para a cabeça e voltaste ao teu meio sorriso virado para mim, as tuas costas uma linha na penumbra, as tuas pernas no ar a brincar com qualquer coisa invisível como uma criança, indiferente ao que o meu corpo tinha deixado no teu, num silêncio trocista. Não falei nada contigo, fiquei sentado a olhar para ti e para a tua casa enorme que era só uma sala de inutilidades mais ou menos valiosas e estragadas, a tua cabecinha careca mais pequena do que os brincos de ouro extravagantes que usavas, os teus olhos grandes mesmo quando estavam fechados, para mim toda tu uma inutilidade linda e gulosa no meio dos teus xailes e dos teus abat-jours. Não tinha nada para te dizer.
Quando de manhã a polícia veio buscar-te, levantaste-te da tua almofada cheia do teu meio sorriso e de calma, vestiste a camisola grande demais, passaste uma mão na pele da tua cabeça para sacudir o que tínhamos feito e depois ajeitar os brincos compridos e feitos de pecinhas valiosas encaixadas. Esfregaste as pernas molhadas uma na outra, não secaram. Não calçaste os ténis rotos que estavam atirados contra a parede. Não olhaste para mim. Saiste com eles e entraste no carro sem o cuidado que a tua camisola merecia. A tua cara dentro do carro arrancou e seguiu. Nunca mais te vi.
Eu continuei parado no meio da sala, nú. Aliviado por teres continuado a tua vida sem mim, sentia por ti o desinteresse de todas coisas bonitas de colecionar. À minha volta o sol trazia à vida caixinhas de papel e de lata, bilhetes de comboio, novelos, pontas de cigarro em caricas, fósforos queimados, guardanapos, jóias enormes esquecidas entre lápis de cor e pincéis, moedas, camisolas tuas cheias de suor onde adivinhei histórias rápidas como a nossa. Curiosa sala... o que haveria atrás da porta onde te tinha encontrado? Imaginei: mais lixo e restos de seres rica e mimada.
A outra salinha não tinha janelas, era pequena, ordenada, cheirava a couro antigo e papel. Numa secretária uma caneta preta e folhas brancas. Junto à parede alinhavam-se malas de tamanhos diferentes, abertas, e dentro delas, sobre os forros de tecido florido, livros. Em cada mala uma etiqueta com um nome e uma morada, como se tivesses finalmente algo a dizer e as tuas palavras jorrassem sem caber numa carta só. Ou então continuavas num silêncio só, e por isso escolhias as palavras dos outros para que te representassem, serias assim não uma mas muitas e nessa surpresa procurei uma morada que fosse a minha, um nome que fosse o meu, fiquei subitamente com vontade de dizer-te que...

4/14/2019

Arrependo-me
de não ter parado de respirar nesse abraço,
(quieta, tão quieta...)
tanto quanto sei poderá ter sido o último,
os teus ossos magros dentro das minhas mãos, envergonhados de encontrar-se ali, outra vez,
nós os dois tão encolhidos e amachucados, umas roupas molhadas
a fingir sol na janela.

4/11/2019

A casa de Janas
tinha riscos na parede por onde passaste enquanto crescias,
tinha aguarelas dela em restos de madeira, portas, gavetas,
tinha empilhada tanta música que eu nunca sentira antes.

Tinha o teu pai, que está prestes a desaparecer.
Nos intervalos em que não há respostas tuas
imagino
as tuas mãos noutro escuro,
o dela quando chega a casa do trabalho no arrepio das 18 horas,
o teu pensamento no meu quarto redondo, onde deverias fazer comigo o que não ousei fazer contigo,
a tua indiferença, afinal, no que escrevo.
E penso
porque é que o teu gelo sempre acendeu as palavras em mim.

3/28/2019


Abraçar-te é como abraçar-me a mim quando era um anjo descalço, cheio de desenhos na cabeça sobre como fazer o mundo e a minha sala e a minha roupa para amanhã.
Abraço-te e cheiras ao palco que resmungava, cheiras ao dourado quente das luzes nas pálpebras e às finas farpas de chão que dançavam nos meus pés, cheiras à primeira pele ao primeiro gato à primeira pena de almofada solta sob o peso do meu corpo.
Abraço-te e nos teus braços sinto um silêncio macio, como quando eu era um monte de asas a procurar um ninho quente.
Abraçar-te já nem é amor por ti, entendes... é um afago na saudade que eu tenho de tudo.