5/05/2019

Sonhei contigo.
A tua casa era um casarão velho de humidade, uma porta cheia de gemidos, vidros fantasmagóricos descansados em janelas ressequidas e escamas de tinta sem cor. Na entrada, uma roseira de flores pequeninas, folhas pequeninas, tantas em ramos imensos nunca penteados.
Parecia que vivias logo ali, a tua vida acumulava-se toda ao rodar da porta num caos de brilhos e sujo. Na sala grande, entre sofás de veludo escondidos por lençóis pardos e aranhas, cómodas de detalhes incertos nas sombras e na confusão, mesinhas escuras e coxas, havia tapetes com cores inesperadas, cheias de viagens, copos de vinho ainda frescos, fotografias tuas e fotografias de gente morta, pratas de chocolates, brinquedos de madeira com sorrisinhos aterradores, xailes de lã mais ou menos inteiros, meias sem par, cadernos, bolachas esfareladas, auscultadores de vários tamanhos, chávenas com desenhos de primavera e café, caixas vazias de pizza, candeeiros altos e abat-jours amachucados cheios de franjinhas e fitas, tantas coisas cada vez mais pequenas que se perdiam dos meus olhos... A luz era uma coisa sem brilho, riscos de claridade da rua quase brancos de pó. 
Do outro lado da confusão, uma porta. E na porta, tu. E tu eras simples. Tu eras linda. Pés pequenos e secos, tornozelos tão finos, punhos tão finos, pernas a pedir bocas e boca a pedir dedos, morangos, chocolates, a fome toda. Apareceste só de pele e camisola, uma núvem de lã grande demais para ti. Sorrias só com um canto da boca enquanto esperavas que eu te encontrasse no meio das bugigangas. A tua cabeça encostada à porta, cabelo nenhum, os teus ombros tranquilos sob uns brincos de ouro grandes demais. Esperavas. Quando te vi não fiquei surpreendido, eras mais uma tralhinha naquela sala, adorável, silenciosa, coisa de colecção, estava ali por ti e quando te atirei para cima de uma almofada o teu corpo levantou uma núvem de pó e penas e eu fodi-te. Fodi-te até colecionar o teu corpo todo, até o teu corpo estar molhado e gelado e sujo como o resto da sala. Quando me cansei de ti, puxaste a almofada para a cabeça e voltaste ao teu meio sorriso virado para mim, as tuas costas uma linha na penumbra, as tuas pernas no ar a brincar com qualquer coisa invisível como uma criança, indiferente ao que o meu corpo tinha deixado no teu, num silêncio trocista. Não falei nada contigo, fiquei sentado a olhar para ti e para a tua casa enorme que era só uma sala de inutilidades mais ou menos valiosas e estragadas, a tua cabecinha careca mais pequena do que os brincos de ouro extravagantes que usavas, os teus olhos grandes mesmo quando estavam fechados, para mim toda tu uma inutilidade linda e gulosa no meio dos teus xailes e dos teus abat-jours. Não tinha nada para te dizer.
Quando de manhã a polícia veio buscar-te, levantaste-te da tua almofada cheia do teu meio sorriso e de calma, vestiste a camisola grande demais, passaste uma mão na pele da tua cabeça para sacudir o que tínhamos feito e depois ajeitar os brincos compridos e feitos de pecinhas valiosas encaixadas. Esfregaste as pernas molhadas uma na outra, não secaram. Não calçaste os ténis rotos que estavam atirados contra a parede. Não olhaste para mim. Saiste com eles e entraste no carro sem o cuidado que a tua camisola merecia. A tua cara dentro do carro arrancou e seguiu. Nunca mais te vi.
Eu continuei parado no meio da sala, nú. Aliviado por teres continuado a tua vida sem mim, sentia por ti o desinteresse de todas coisas bonitas de colecionar. À minha volta o sol trazia à vida caixinhas de papel e de lata, bilhetes de comboio, novelos, pontas de cigarro em caricas, fósforos queimados, guardanapos, jóias enormes esquecidas entre lápis de cor e pincéis, moedas, camisolas tuas cheias de suor onde adivinhei histórias rápidas como a nossa. Curiosa sala... o que haveria atrás da porta onde te tinha encontrado? Imaginei: mais lixo e restos de seres rica e mimada.
A outra salinha não tinha janelas, era pequena, ordenada, cheirava a couro antigo e papel. Numa secretária uma caneta preta e folhas brancas. Junto à parede alinhavam-se malas de tamanhos diferentes, abertas, e dentro delas, sobre os forros de tecido florido, livros. Em cada mala uma etiqueta com um nome e uma morada, como se tivesses finalmente algo a dizer e as tuas palavras jorrassem sem caber numa carta só. Ou então continuavas num silêncio só, e por isso escolhias as palavras dos outros para que te representassem, serias assim não uma mas muitas e nessa surpresa procurei uma morada que fosse a minha, um nome que fosse o meu, fiquei subitamente com vontade de dizer-te que...

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