1/17/2020

Talvez um dia eu e tu fiquemos loucos juntos, eu em Lisboa, tu em Bruxelas, senis na nossa mesa de esplanada, na nossa torradinha mergulhada no café como tu sempre gostaste e que, aposto, hás-de esquecer só depois de esqueceres o resto todo, primeiro esquecerás que deixaste tudo e que ela foi o teu mundo nesse mundo novo, cabelo infinito tão diferente do meu, esquecerás a magnólia que vês da janela e que se enche de primavera nos dias que ainda são de frio, esquecerás que o teu pai era igual a ti e que desapareceu num dia diferente do teu para que não restassem dúvidas sobre quem é quem, esquecerás os gatos de pelo e osso e os elefantes de louça, a luz sempre apagada da janela da sala da tua mãe, só uma migalha de sol nas bugigangas, a parede encardida da tua casa antiga, numa rua cheia de desgraçados, onde cresciam cogumelos, esquecerás o rio e os bares pequenos onde enrolavas cigarros de rir, os óculos amarelos que foram os teus olhos quase para sempre, esquecerás a nossa casa que era um quarto só, redondo, cheio de cotão na nossa preguiça de sair da cama, cheio de sol derramado nos pijamas esquecidos pelo chão na vertigem do sono ou da fome, esquecerás as paisagens onde te levaram aviões e carros, esquecerás as palavras que escreveste as palavras que leste os palcos onde te perdeste em aplausos e outros que não tu, esquecerás que te arranquei um pedaço como se fosse meu e tu não pudesses sentir-lhe dor ou falta, esquecerás tudo até ficar só eu. Eu, de cabelo apanhado no alto da cabeça e costas ossudas. Eu, para sempre menina, cheia de vergonha de ti. Eu, e aquela tarde em que recortámos fotografias a preto e branco e as espalhámos na parede do teu quarto, o teu primeiro quarto, tantas, um filme interminável de lábios e mãos e telhados que imaginámos ser o nosso, um dia, just in case de o mundo nos separar para sempre e sobrar só aquele lugar de papel e tinta preta onde, numas poucas horas, fomos felizes para sempre.