10/29/2007

noobai

Ainda falta para o teatro. Olho para ti pelo vidro do copo. Estás distraido a ver os candeeiros na água, a pensar quantos homens irão cair ao rio com as próprias mãos a empurrar-lhes as costas. Num buraquinho do chão está um girassol de pano que estremece como um candeeiro no rio, um candeeiro na água a bater os dentes de frio.
Queria colar-te no olho da máquina, girá-la devagarinho nas pontas dos dedos, esperar até a luz do candeeiro se voltar para acender palhinhas nas tuas mãos e aí carregar no botão, deixar-te ficar preso, preso assim distraído a escrever mais ou menos poemas dentro da cabeça, poemas sobre a água irrequieta, sobre os telhados cheios de musgo, sobre as janelas que se acendem ainda que já se faça tarde...

Nesse dia voltámos para casa já era dia, num taxi molengão...

10/25/2007

Hei-de embrenhar-me na noite, já daqui a pouco, embrenhar-me até não saber mais de mim, até ser uma garrafa verde ou um cão preto que abre portas com um uivo, a andar sozinho a ver as pessoas passar, a olhar para elas com o focinho torto para a direita, a continuar a andar com o rabo entre as pernas, não saber de nada não saber de mim, encolher os ombros e esquecer como tudo é tão lindamente triste. Um homem de jardineiras vermelhas e careca no topo da cabeça anda no meio das mesas do café e oferece caricaturas... Quero ser um cão preto de nariz torto para a direita e passar com o rabo entre as pernas, não saber de dizer que não, não saber falar lígua de homens, ser um cão preto que abre portas com um uivo e adormece enroscado no tapete a sonhar com ossos, não sentir rios embrutecidos a querer romper-me as pálpebras, não ter de embrenhar-me na noite, a noite acaba sempre com o céu a azular-se, sempre, e eu aguento os olhos para ver tudo e então deixo sair os rios e os peixes e os seixinhos polidos por tanta água e adormeço enroscada no tapete...

10/04/2007

La Phare

A música aperta-me o pescoço com cinco dedos bem esticados, grita aos meus ouvidos, só aos meus ouvidos, o resto da casa dorme ou ainda não chegou a casa, é uma valsa em bicos de pés e eu danço num quadradinho de chão com um domador de leões, sinto-lhe o veludo vermelho do casaco a descoser-se, o cheiro do cabelo sinto a areia a entrar nos sapatos para dentro das meias para entre os dedos, danço com um palhaço já sem tinta, danço com uma mala cheia de penas que me vestem de pomba quando numa roda se abre ao meio e se derrama no chão, é uma valsa em bicos de pés dançada com outra mulher, só outra mulher saberia rodar assim abraçada a mim, uma mulher com braços de homem com força para me segurar as costas, para me fechar os olhos, uma mulher com cabelo a cheirar a domador e leões com ombros de veludo largos para cravar as unhas para enterrar o queixo enquanto a música se põe mais em bicos de pés, tenho a cara pintada de branco como um mimo não preciso de pés para dançar, não preciso de música, invento tudo e alguém me aperta contra os botões do casaco e rodo rodo rodo o meu corpo pede dançar, pede desfazer-se em água, água cheia de música de regar jacintos e poças onde pássaros de papel vão beber...