10/25/2007

Hei-de embrenhar-me na noite, já daqui a pouco, embrenhar-me até não saber mais de mim, até ser uma garrafa verde ou um cão preto que abre portas com um uivo, a andar sozinho a ver as pessoas passar, a olhar para elas com o focinho torto para a direita, a continuar a andar com o rabo entre as pernas, não saber de nada não saber de mim, encolher os ombros e esquecer como tudo é tão lindamente triste. Um homem de jardineiras vermelhas e careca no topo da cabeça anda no meio das mesas do café e oferece caricaturas... Quero ser um cão preto de nariz torto para a direita e passar com o rabo entre as pernas, não saber de dizer que não, não saber falar lígua de homens, ser um cão preto que abre portas com um uivo e adormece enroscado no tapete a sonhar com ossos, não sentir rios embrutecidos a querer romper-me as pálpebras, não ter de embrenhar-me na noite, a noite acaba sempre com o céu a azular-se, sempre, e eu aguento os olhos para ver tudo e então deixo sair os rios e os peixes e os seixinhos polidos por tanta água e adormeço enroscada no tapete...

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