10/04/2007

La Phare

A música aperta-me o pescoço com cinco dedos bem esticados, grita aos meus ouvidos, só aos meus ouvidos, o resto da casa dorme ou ainda não chegou a casa, é uma valsa em bicos de pés e eu danço num quadradinho de chão com um domador de leões, sinto-lhe o veludo vermelho do casaco a descoser-se, o cheiro do cabelo sinto a areia a entrar nos sapatos para dentro das meias para entre os dedos, danço com um palhaço já sem tinta, danço com uma mala cheia de penas que me vestem de pomba quando numa roda se abre ao meio e se derrama no chão, é uma valsa em bicos de pés dançada com outra mulher, só outra mulher saberia rodar assim abraçada a mim, uma mulher com braços de homem com força para me segurar as costas, para me fechar os olhos, uma mulher com cabelo a cheirar a domador e leões com ombros de veludo largos para cravar as unhas para enterrar o queixo enquanto a música se põe mais em bicos de pés, tenho a cara pintada de branco como um mimo não preciso de pés para dançar, não preciso de música, invento tudo e alguém me aperta contra os botões do casaco e rodo rodo rodo o meu corpo pede dançar, pede desfazer-se em água, água cheia de música de regar jacintos e poças onde pássaros de papel vão beber...

1 comment:

Anonymous said...

as tuas palavrinhas não parecem conjunto de letras..mas sim a decomposição de todos os sentidos...tocar, amar, suspirar, espreitar, olvidar num abraço só..
Embalas-me os dedinhos numa dança sem fim como o veludo dos leões.
xi*