Experimento as minhas mil caras. Hoje escolho esta. Todos parecem ter encontrado o seu cubículo, no colchão na mesa do café, eu dobro a roupa com paciência e arrumo-a direita na gaveta, as horas são mais lentas para mim, não duvido, passam como um comboio a vapor embaciam os vidros, o velho aquecedor de óleo é o corpo quente na minha sala. Imagino as vozes e os aplausos, a mão a pentear-me o cabelo junto ao pescoço, mas as olheiras crescem-me ácidas e as mãos impacientes de esbofetear, dobro a roupa lenta, rego os cactos, páro de pé em frente à janela e confirmo que chove na luz riscada do candeeiro, sento-me e espero o cuco do relógio no seu assobio de embalar, peço permissão para acabar o dia, peço por favor. Ninguém me conheceria, corcunda e amarelecida agora, experimento as minhas mil caras e hoje esta escolhe-me, escolheu-me já há muito, recordo agora... e entranha-se podre na minha pele até nada mais restar dos meus vinte anos.
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