6/26/2009

O meu corpo é um lugar estranho.

Enfeito-me com folhos e flores, pinto-me olhos e bochechas, calço sapatos altos da minha mãe. A minha mãe há-de sempre calçar sapatos maiores que eu e o meu pé há-de escorregar neles até caber só num cantinho de atacadores. A minha mãe há-de ter sempre brincos e anéis numa caixa de madeira para eu encher os meus dedos de brincar, a minha mãe há-de sempre assustar todos os monstros debaixo da cama. Um dia a minha cara será antiga como a da minha mãe mas eu hei-de ser sempre infinitamente pequena e ela há-de infinitamente cuidar de mim e passar-me a mão no cabelo quando eu cair e esfolar os joelhos, um dia juntarei e minha mão à dela, sobre a dela, e serão igualmente carcomidas e manchadas de rascunhar a vida, mas a minha mão caberá sempre dentro da dela, enrolada, da mesma forma que cabia há muito tempo, quando ainda não era eu para mim e era apenas eu para ela.

O meu corpo esmigalhar-se-á.
Mas há um lugar onde serei sempre intacta.

2 comments:

Gil said...

Não há como não amar o que escreves carol. Beijinho bom.

Catarina said...

faço das palavras do Gil as minhas. São uma pena suave que passa pelos olhos.

O primeiro é do Carteiro de Pablo Neruda (Il Postino) e o segundo estreou a semana passada e é nada mais nada menos que Coco Avant Chanel. Vai ver, val a pena. Os dois valem muito a pena.

Beijinho :)