Se eu fosse uma menina teria um submarino debaixo de uma roseira, um submarino azul feito de rodas de bicicleta e pratinhas de chocolates e um volante um chapéu-de-chuva para os pingos. Teria brincos de cereja e berlindes e terra escondidos no bolso. Quando era menina sentavam-me em cima de uma lista telefónica para jantar, no fim escondia-me debaixo da mesa para os óculos da minha avó não me encontrarem, e espreitava os embrulhos antes do natal chegar. Quando era menina fazia peixinhos de areia e aviões com a palma da mão, a avó tinha um robe verde com botões redondos e caracóis cinzentos e o avô gostava de praia. A minha praia era um alguidar de água fria, a mãe acordava-me no comboio e comprávamos pão numa carrinha à porta da estação, o pai transformava madeirinhas numa casa de bonecas, o chão da cozinha era vermelho... A tia era uma menina de trapos e ria na máquina da costura. O tio era careca. O tio é careca. Eu não tenho berlindes nem um avião.
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