Às vezes preciso de abrir as gavetas. Tirar tudo para fora, montar o castelo de cartas que no fim hei-de soprar de volta ao chão, e outra vez esquecer. Mas às vezes preciso de abrir as gavetas, calçar sapatilhas de ballet pequeninas e saias de tule com peixes que já foram de verdade e rodar pelo quarto espartilhada numa pele que sufoque o meu corpo crescido e desgracioso. Matar bichos velhos que sobreviveram a todas as vezes que tentei cortar-lhes a cabeça com a maldade de uma criança curiosa armada de mãos sem lembrança. Tiro tudo para fora com a paciência meiga de um embalo, apalpo os envelopes para confirmar que continuam todos lá dentro, a dormir nos vincos do papel, reconheço os ganchos de cabelo e os lenços desengomados, e prometo que os acordarei quando for hora. Mas ainda não... Faço-os prisioneiros das minhas sombras enquanto me tremerem os joelhos com medo do escuro.
Serão os meus pirilampos.
Serão os meus pirilampos.
1 comment:
Lindo não é? É em Alfama, e é só uma amostra.
Tu e os teus pirilampos.. os teus bichinhos :)
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