11/06/2006

carta ao buscardini

Há muito muito tempo era eu uma criança que brincava alegremente no jardim...Isso foi há muito tempo. Agora sofro de saudade crónica de coisas que nunca mais hão-de ser minhas, a não ser nas fotografias e num brilhozinho ocasional de olhos enquanto arrumo bilhetes de comboio antigos (sei-os a todos de cor, em que dia sairam a crepitar da máquina para me levarem na mais inacreditável viagem) na portinha branca da mesa de cabeceira. Cabem lá todos, cada um com o seu diazinho impresso, entalados entre os laços de embrulho e recortes de vestidos que sonhava meus para o baile de finalistas. Cheios de brilhantes e cetins, as meninas são tão tontas nestas coisas!... Saudade crónica de sair da cantina com a roupa a cheirar a guisado e correr para a janelinha da casinha de chá contigo, tu pedias um néctar e eu insistia para te afogares em chá, chá de cheirinhos a amêndoa e baunilha, mas depois esqueciamo-nos disso tudo e tagarelávamos, acho que até houve um dia em que levei os meus sapatos de verniz amarelos, estava a chover um bocadinho, sintra tinha aquele cheirinho a água de inverno e a nevoeiro, um cheirinho que sei de cor quando o vejo chegar e que até com os olhos fechados consigo apanhar entre os dedos, cheiro a frio como quando fomos à floresta encantada, cheiro a frio como quando ouvimos antony pela primeira vez no parque da pena, cheiro a frio de quando os ensaios acabavam à noitinha... Porque raio é que te escrevo isto é que não sei. Estou a escrever-te a ti porque tenho saudades crónicas de ti, e ainda não me escreveste um mail em francês. Onde andas? Vou vendo toda a gente, uns mais que outros, mas a ti nunca te encontro, da ultima vez rimos de umas tonterias e disseste que eu parecia mais crescida. (acho que crescer é perceber que não muda grande coisa... só nos tornamos mais sozinhos, acho eu.) Quando é que vamos beber chá outra vez? Eu levo os meus sapatos amarelos e se chover e tudo como dantes, até o cheirinho a água do ar... Afogamos as mágoas, não as de agora mas as de antes que eram mais pequeninas, as de agora não cabem numa chávena de chá. Vamos? Convida-me para dançar em francês, debaixo do lustre e com uma grafonola, naquela altura não sabíamos ainda o que eram as saudades e como é bom voltar ao salão de baile. Agora crescemos, e já percebemos... Anda, convida-me...

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