3/10/2009

O velho

Eu gostava que nunca me incomodasse. Os cantos da boca brancos, secos, a pele de jornal, as mãos apertadas de fios que sabem se respiras, se o teu coração está quente, os olhos amarelos de malmequer murcho. Gostava que não me incomodasse, a cama recebe-te e não há fotografias de ninguém à beira da almofada, nem pastéis de nata que as mães sempre trazem, tu já não tens mãe, pois não? Gostava que não me incomodasse... os passos de algodão de quem entra e não quer acordar-te para não perguntar Então como está hoje? Está melhorzinho?, eu abeiro-me da cama e viro as folhas quase sem dedos, quase sem abanar o ar, gostava que não me incomodasse a rouquidão com que te dói o que tens dentro, a rouquidão com que olhas para mim e me dizes, sem mexer a boca de cortiça, que queres namorar comigo. Porque vais ter para sempre vinte anos, mesmo que a tua pele tenha estórias velhas, que as tuas mãos façam tremer fios que fazem tremer máquinas, que o teu coração já se canse de apanhar borboletas e que os teus olhos se molhem sozinhos. Tens vinte anos, eu também tenho vinte anos, sei que estás cansado de passar o dia de pijama.

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