10/16/2015

A luz desaparece e leva com ela o azul da casa. Debaixo do candeeiro continua a cor do bule, só a cor do bule, o vapor de perfume do bule.
Ela encheu o copo de vinho, um copo grosso de vidro com uma flor vermelha, e bebe-o agora, nua na cadeira, só a cor do bule no resto da casa apagada, enquanto revê o barulho e o suor do seu corpo ainda um momento antes. A boca cheia de vinho, engole-o devagar, que não se ouça, que ele não ouça. O bule arrefece sem ser visto.
Puta. Disse ele.
Fode-me minha puta.

9/01/2015

Eu quero dizer-te. Que tu me fazes novo. Como quando pisávamos caruma e galhos em calções e botas de lama e costas pesadas, tu eras quase criança e cansavas-te como as tardes encaloradas, eu gostava de ti sem saber dizer como e tu usavas tranças e ainda um resto de infância, eu era um homem e sabia segredos que tu não sonhavas ao procurar o meu braço para descansar os pés do peso do teu corpo, ao deixar na lã do meu casaco o teu cheiro de margarida colhida, quente de sol, ao pedir-me com um risinho umas meias quentes que, eu quero dizer-te, te imaginava a calçar, sentada na beira da minha cama, quase mulher como agora.

5/27/2015

Jantar

Usa de mim o pedaço que quiseres, o que gostares mais, a minha inteligência ou o meu pescoço, usa e deita fora o resto, não deixes nada que me lembre que a minha cama é vazia e o meu coração açoitado, rasga-me em farrapos que não deixem estória nenhuma.

4/27/2015

Sem nos darmos conta acabámos por viver juntos, tu na Pena e eu na Estrela, algumas paragens de autocarro e muitas desculpas entre nós, ou era tarde, ou pesavam-me os olhos, ou então algum rabisco teu a aumentar o caminho entre as nossas portas, mas acabámos por viver juntos porque o teu avô morreu logo com o meu e eu e tu trocámos ser meninos com eles entre meias de leite e croissants e inundações de olhos no Restelo. Acabámos por viver juntos, eu fugia de ti e tu fugias de mim mas matámos a fome de contar estórias no mesmo escuro no mesmo cinema, não entravas na minha casa, não era preciso, fiz-me crescida a beijar-te a boca, sempre, mesmo quando não vivíamos juntos, e assim nunca nos deixámos. Nem que quiséssemos.

9/26/2014

Lá fora, o que era azul ficou sem fundo,
o que era barco e vela adormeceu,
o que era corpo de pé incendiou-se.
A minha janela.

6/08/2014

C.F.

Ontem escrevi-te, no meio do trabalho e da chuva,
Escrevi-te como se te visse ali, talvez
Comovido de ver-me mulher atarefada de pequeninos, talvez
Curioso, talvez
Silêncio....
Trago-te muito nos dias, como se traz tudo o que nunca se esquece e tudo o que se usa para ser gente.
Trago-te como uma mão essencial à sabedoria de mexer no mundo.

1/03/2013

2013

Este sofá mudou, não foi de sítio, foi de jeito. Eu estou aqui e doem-me as costas. O silêncio. 

Imaginei a cozinha cheia de sons e refogados e copos de vinho a escorrer pela garganta. Olho para ti. O sofá. Pareces triste. Eu com certeza estou à beira do rio. Pareces triste e apetece-me desvendar mapas do tesouro e perguntar se te vais embora um dia. Quer-me parecer que sim, ninguém vive assim com a cozinha apagada, a cheirar a mosaicos e limpo. Ninguém, talvez só eu e tu. Talvez... 

Doem-me os olhos de não chorar.

8/18/2012

Passam por mim. Tu dentro. Ela fora. E eu vou duvidando de ser eu.
O meu BI diz que tenho vinte anos. E uns trocos. Não sei...
Tantos anos atrás de uma água assim que se chorasse sem fim sobre o papel. Afinal afogou-me as palavras.

8/05/2012

Ainda não acredito.

5/18/2012

No teu sofá não serei mais. Uma criança, não serei mais. Sentar-me-ei, as nossas cabeças à mesma altura, as nossas mãos trazidas à tona do mesmo lodo. Terei café e mágoas para ti. No teu sofá serei uma mulher, uma mulher no meu canto antigo de criança e gatos curvada de joelhos demasiado grandes. Tenho a certeza que te entenderei menos, eras tão simples nos teus versos, pianos, rosas, na minha distracção sem altura sem anos...

3/09/2012

Esta suave Primavera que começa que se derrama luz no chão, como quando adormecia ao fundo da tua janela entre o gato e a tua roupa. Era simples assim, eu adormecida e tu ali, para sempre. 

12/19/2011

Tristes são os pombos com as patas secas, não sei se de frio se de maldade. O resto sou eu a apagar o cigarro na minha mão, curiosa de feridas. 

12/16/2011

Lembro-me de caírem botões sobre mim... foi o dia mais triste. Nesse dia passaste a ser para sempre meu e então eu fiquei sozinha para sempre.

11/05/2011

uma ousadia

Parece-me que voltei a encontrar-te, que má pontaria, logo agora, estou atrasada e não sei onde deixei a minha bondade, tenho a certeza que te usarei sem dó que te esgotarei de recortes e asperezas. Mas agora que me cruzei contigo agarro-te o pulso antes que vires costas, espera só um segundo, vou pôr um chapéu de homem e uma blusa encalorada para que fiques confuso e sugiras procurar-me, entender-me. Trago na carteira a fotografia de um palhaço velho preto e branco e olhos azuis, triste, vamos olhá-la, anda, eu gosto de palhaços e tu gostas de lágrimas, cruzamos os pés debaixo da mesa e, espera, encontrei-te. Não quero que me pagues o café e corras para o comboio, levas os meus pés ainda na bainha das calças, tu nem te apercebeste estavas com pressa e era só um café, e como é que eu vou sair daqui agora...

9/23/2011

Biblioteca

Um palhaço pintado, botões dourados nas mangas olhos grandes de peixe azul, sinto-me um palhaço pintado quando deixo a porta em roupas de Domingo e tento encenar que tropeço por acaso em ti na rua.

9/15/2011

nós

Eu e tu existimos só no suor de um bar apinhado de gente, no suor doente de demasiados copos de vinho, no suor do teu braço em volta de mim a ensinar-me a dançar. A voz treme-me por isso existes em mim, e a rua quando passas é uma noite embriagada para onde me atraso... Os teus dentes riem quando me descobres do outro lado da porta por isso existo em ti, nem que só por um instante à noite ou na noite que criamos para podermos dançar e depois amanhece e passamos só na rua e é só rua a rua.

7/05/2011

No Verão a terra ardia e as galinhas procuravam bichos de areia. O sol era uma bochecha cheia de vergonha escondida ao entardecer atrás da casa, ao lado da casa. A casa era a pequena das duas, pedra sem candeeiro ou então era a tarde a encandear-me os olhos e a fazer de todas as paredes uma noite cerrada. A casa cheirava a fumo e restos de almoço num balde, a casa cheirava a ela que depenava uma galinha cheia de bichos de areia, o cabelo branco que foi sempre assim para mim apanhado num rolinho, uns brincos de ouro?... A casa era escura porque não tinha candeeiro ou então era a tarde a encandear-me os olhos ou então era eu ser pequena e os meus olhos não perderem tempo com nenhuma escuridão, eu dormia na casa que era a grande das duas, que tinha escadas, que tinha quartos e camas de ferro, que tinha silêncios de sesta, eu dormia na casa que era branca enquanto as galinhas brincavam sem mim e eu sonhava com elas, com afugentá-las de asas abertas em frente aos meus sapatos, assustadas só o tempo suficiente para um pulo e depois a mesma moleza de penas a bicar o chão vazio. A minha mãe era pequena só um pouco menos que eu e calava-se de calor numa cadeira à porta da casa que era pequena que era de pedra que não tinha luz por dentro que tinha sol por fora. O meu pai... não me lembro. Dizia-me para não arreliar o cão. Os cães, o cão era o grande dos dois. O meu pai guardava-nos a todos para sempre numa cassete. O meu pai talvez voltasse com ele, magro corpo de boina mãos sujas cheias de amendoeiras poços fundos cordeirinhos brancos, sorriso bondoso malandro, eu era pequena não sei se sei o que seria a bondade.
As casas todas tinham portas com fitas de plástico para que não entrassem as moscas. As fitas de plástico também não deixavam entrar o calor...

6/21/2011

Vinte anos

A porta onde fomos engolidos pela lente, assustados como se tivesse dentes, agarrámos-nos as mãos e juntámos as cabeças, não me deixes não me deixes, e sorrimos como se isso nos salvasse da morte certa.

5/14/2011

Acho que. 
Gosto de.

4/26/2011