Num instante conhecem-se as ruas todas. Ouço os meus sapatos no chão, saltitam as falhas das pedras mas não hesitam, sei o caminho, um bocadinho mais espaçado o som do chapéu de chuva comprado há umas horas, o som dos sapatos mais rápido e entre ele, como uma palma fora do tempo, o som do chapéu de chuva comprado há umas horas de plástico transparente para se alguém me cumprimentar de alguma janela eu conseguir ver, conseguir ver se alguma andorinha voltar agora a fugir às outras todas para sentir o frio nas penas brancas da barriga mesmo que morra logo depois. É inverno, ainda não mas para mim já é, enrosco o lenço no pescoço dentro das golas do casaco e desço a rua, passam dois pretos por mim junto ao muro da prisão e riem-se, tremo de frio mas sei qual das três ruas lá ao fundo é a minha, venho do cinema e vou adormecer num quarto redondo, ligo o computador para escrever do meu primeiro fim-de-semana e descubro que sou boa com a espátula das obras a pôr vidrinhos nas janelas, no quarto ao lado vêem um filme francês, na janela ao lado uma velhota deve dormir com a luz apagada num pano de renda, na rua passa o último bêbado, o último de hoje e eu ouço leonard cohen. Ele está lá em cima. Eu estou calma.
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