8/25/2010


Em Setembro a tarde sob um abat-jour, o frio primeiro doce. Esta música aconteceu há muito tempo era eu enorme ardia uma chaminha no bolso da minha camisa.
Ao longe, longe, deixo-te ir, que mais...

8/11/2010

Beirut, Sudoeste 2010


A primeira música.
O êxtase total.

7/30/2010


Belo, meu belo, preferia quando tinha saudade, quando as fotografias eram terríveis silêncios muito longe das pontas dos meus dedos, quando cada som tinha de ser calado antes que eu começasse a chover pelo corredor...

7/27/2010


Desprende-se uma doçura no teu corpo depois de o cansaço te domar, silencioso, os dedos finalmente sem perícia de desabotoar-me as costas. Espero de ti o mesmo cuspo o mesmo interesse minucioso e curto que todas as coisas belas de colecionar, mas então a doçura no teu corpo, tão surpresa que ouso descansar a cabeça no calor da tua manga, esconder a cara toda no calor da tua manga, só um pouco, só enquanto é verdade...

7/16/2010

roubado do redondo



Do meu preferido...

7/08/2010


Pouco penso nestes tempos. Atiro-me ao rio como se fosse líquido e não me quebrasse o corpo, atiro-me do parapeito como se tivesse asas emprestadas de beija-flor. Que me importa que amanhã seja o dia em que te mostrarei quem sou sem farsa, passará depois logo a seguir logo um instante e certamente ficarei sozinha. Esbanjo a alma em coisas de nada... Vinho, pêssegos, pedaços de harpa no escuro quente do quarto. É pequeno o meu corpo ao lado de um corpo de homem, caminhamos lado a lado dou-te a mão, quero ser a tua criança, quero caber-te no canto do cotovelo e acreditar em ti como num herói, quero ser a tua criança adormecida nos lençóis tocada com a graça de um amor inexplicável pela minha pequenez de figura.

7/05/2010

a manhã

De manhã perturbo os bichos que dormem nos recantos da casa, criaturinhas silenciosas que partilham o podre das minhas gavetas e que fogem ao meu tactear cego.
Há uma dança de pássaros sobre os telhados, espreguiçam as asas em círculos vertiginosos, ensurdecedores, ocupam o céu todo...

7/03/2010

Sou uma tábua onde sentes coisas impossíveis, a manhã chega em silêncio para nós, chega sempre em silêncio para nós, tu és um búzio onde sinto coisas proibidas, ponho-te junto ao ouvido e contas-me de mim, cantas-me de marés em mim onde já balouçavas muito antes de eu chegar.
Fica.

6/23/2010

Atrás da porta posso ser um animalzinho só de pele, lânguido pelos cantos pelos bancos pelos tampos das mesas, suave como uma escama como um peixe transparente, um farelo de perfume que deixo colado na fechadura e que espreita silencioso o corredor. As tílias perdem pestanas amarelas pela rua, cheirosas, o som das folhas a passarem nos dedos dos rapazes que estudam no café, o tabaco que desenha sereias brancas, e os pássaros, os pássaros sempre de férias...

à espera...


...
así te amo porque no sé amar de otra manera,
sino así de este modo en que no soy ni eres,
tan cerca que tu mano sobre mi pecho es mía,
tan cerca que se cierran tus ojos con mi sueño.


Pablo Neruda

6/21/2010

Penso, num dia mau

quando eu for muito velha haverão homens que continuarão a ser imortais, e tudo o que sinto hoje será farsa maltrapilha.


6/19/2010

6/14/2010


Deixa-me pôr-te a mão na barriga. Hoje que o escuro cheira a tílias e a lua é um baloicinho amarelo, gigante, empoleirado nas chaminés.

6/08/2010

epifania


As calças sem amaciador ficam de pé sozinhas...


6/06/2010


Deixo escrito: tudo é tão bonito quando eles estão comigo.




6/03/2010

Sei o que fazes quando chegas a casa. Sei como tacteias o escuro, sei como o teu suor se mistura na luz impúdica que vem da rua até ao chão, sei como o chão é silencioso e te apanha o vestido escorregadio, sei como atas a boca para não te descobrirem, para não te ouvirem no teu esconderijo no teu segredo, sei como se ensopa o teu cabelo, como mordes fios de cabelo quando tentas não falar, sei como os teus músculos se encrispam, mulherzinha...

5/31/2010

Há um tempo para ficar quieta. Para recostar o corpo num sofá mole e fechar os olhos e sentir o cheiro dos frutos ainda verdes lentamente adultos debaixo do sol. Para descobrir sardas no nariz, conchas cheias de brincos e pedras verdes na gaveta, saquinhos de pano de ganchos e ervas secas, e as paredes são sempre tão cheias do que não ousamos contar a ninguém. Há um tempo para ficar sentada à mesa ver a luz mudar na rua, distraída, sem ver a luz mudar na rua, distraída, há funis em cordéis debaixo de toldos e cerejas nos becos, engraçado, funis em cordéis e cerejas, como descrevem bem a minha cidade.

5/17/2010

Álbum

Poderia viver só de belo, sentada na cadeira virada para as janelas a contar estrelas em cada vidro, apenas, ensurdecer de música, um copo de água com dedadas minuciosas.
Um dia houve em que os homens cantaram debaixo de lua e sal, garrafa na mão marinheiros, era eu ainda acabada de começar, cabeça desgrenhada de criança cheia de pó, longa viagem o cansaço caído no chão debaixo de lua e sal, vi gente dançar, vi gente dançar, vi gente lançar-se ao mar sem medo de ter corpo, vi gente dançar.
Repito-me. Em frente ao actor lembro quando também eu ardia e transpirava as luzes escuras do palco e a mentira era comovente como uma estória antiga. Quase verdade, não fora a luz demasiado bela, azul, as crianças penteadas em golas de renda, loucos com mãos de cetim, velhos trapezistas, pó de arroz em lufadas brancas nas cortinas... Volto a dizer, há música que não ouso escutar, é outono debaixo dela há risos debaixo dela sem sapatos nas folhas que se partem, quero partir para nunca mais voltar, sou um pássaro estilhaçado.

5/08/2010

Balada de Despedida do V ano Jurídico

Da primeira vez furei a multidão, era tão pequena, tão orgulhosa na minha capa negra. Fechei os olhos e sorri, tanto tempo pela frente ainda...
Hoje traço a capa e sei que em breve partirei. E cada música tem palavras que conheço bem, íntimas, aconchegadas em mim como a minha capa negra. Tu ouves mas não estás aqui, não sabes que não se respira até ao último acorde, medo que seja já a última vez.
Da próxima vez será a minha última serenata.