11/25/2010
Gonçalo
Estás tão quieto, aí na mesa entre o que te atarefa, eu olho para ti e levo tempo, demoro-me em ti. Partiremos... Partiremos em breve e esta mesa não será mais a nossa casa, colheres e chávenas de onde se desenha fumo e traços de café até à toalha, partiremos tão já a seguir quem nem terei tempo de olhar para ti e, naquele sorriso que se estica apenas no imaginar do meu rosto, saber que houve instantes em que, distraídos, pensámos as tardes iguais, agarrámos o copo com qualquer coisa mais entre os dedos, tivemos saudades nossas sem sequer saber o que isso é.
11/10/2010
11/09/2010
intervalo
Gosto de ver-te fumar, pelo vidro do alpendre, a mão esticada no ar o fumo fino como os teus dedos, o teu cabelo sem medo do vento. Encostas as costas no corrimão e fumas e eu fecho os olhos, gosto de ver-te fumar.
10/30/2010
Flash
O velhote vende línguas da sogra nos repuxos das rodas dos carros, entalado entre o alcatrão e o chapéu torto de chuva. Parece que faz sol nos olhos dele.
10/05/2010
O frio
Música com pássaros.
Quando o vento se impacienta lá fora e sacode para os meus ombros a cortina lembro-me das chávenas penduradas na cozinha todos os dias e de como de manhã os pardais se aventuravam nas migalhas do jantar. Fugiam ao ouvir-me, pesada de sapatos, pela janela amarela nunca fechada.
E a chuva lembra-me os peixes à porta da tua casa.
9/07/2010
feira da ladra
Longe quando caminhávamos juntas, subíamos ruas escorregadias de areia e carris, um pão uma pêra, montras fechadas de sapatos cheios de pó e aranhas adormecidas, os teus cabelos eram tão compridos e havia uma nódoa no meu vestido, o tempo não tinha tamanho nenhum. Longe quando coleccionávamos a vida dos outros, postais e grafonolas, e eu não sabia ser triste ou natural, eu e tu éramos uma extravagância, nada mais que isso.
Sonhamos as estradas nesta manhã parecida, eu sou silenciosa e agradeço as esmolas, tu chegas carregada dos mesmos sacos e de outra igual a ti. Sorrimos. Eu deixei cair uma nódoa na saia. E porque não...
8/25/2010
8/11/2010
7/30/2010
7/27/2010
Desprende-se uma doçura no teu corpo depois de o cansaço te domar, silencioso, os dedos finalmente sem perícia de desabotoar-me as costas. Espero de ti o mesmo cuspo o mesmo interesse minucioso e curto que todas as coisas belas de colecionar, mas então a doçura no teu corpo, tão surpresa que ouso descansar a cabeça no calor da tua manga, esconder a cara toda no calor da tua manga, só um pouco, só enquanto é verdade...
7/16/2010
7/08/2010
Pouco penso nestes tempos. Atiro-me ao rio como se fosse líquido e não me quebrasse o corpo, atiro-me do parapeito como se tivesse asas emprestadas de beija-flor. Que me importa que amanhã seja o dia em que te mostrarei quem sou sem farsa, passará depois logo a seguir logo um instante e certamente ficarei sozinha. Esbanjo a alma em coisas de nada... Vinho, pêssegos, pedaços de harpa no escuro quente do quarto. É pequeno o meu corpo ao lado de um corpo de homem, caminhamos lado a lado dou-te a mão, quero ser a tua criança, quero caber-te no canto do cotovelo e acreditar em ti como num herói, quero ser a tua criança adormecida nos lençóis tocada com a graça de um amor inexplicável pela minha pequenez de figura.
7/05/2010
a manhã
De manhã perturbo os bichos que dormem nos recantos da casa, criaturinhas silenciosas que partilham o podre das minhas gavetas e que fogem ao meu tactear cego.
Há uma dança de pássaros sobre os telhados, espreguiçam as asas em círculos vertiginosos, ensurdecedores, ocupam o céu todo...
7/03/2010
6/23/2010
Atrás da porta posso ser um animalzinho só de pele, lânguido pelos cantos pelos bancos pelos tampos das mesas, suave como uma escama como um peixe transparente, um farelo de perfume que deixo colado na fechadura e que espreita silencioso o corredor. As tílias perdem pestanas amarelas pela rua, cheirosas, o som das folhas a passarem nos dedos dos rapazes que estudam no café, o tabaco que desenha sereias brancas, e os pássaros, os pássaros sempre de férias...
à espera...
...
así te amo porque no sé amar de otra manera,
sino así de este modo en que no soy ni eres,
tan cerca que tu mano sobre mi pecho es mía,
tan cerca que se cierran tus ojos con mi sueño.
Pablo Neruda
6/21/2010
Penso, num dia mau
quando eu for muito velha haverão homens que continuarão a ser imortais, e tudo o que sinto hoje será farsa maltrapilha.
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