9/26/2014

Lá fora, o que era azul ficou sem fundo,
o que era barco e vela adormeceu,
o que era corpo de pé incendiou-se.
A minha janela.

6/08/2014

C.F.

Ontem escrevi-te, no meio do trabalho e da chuva,
Escrevi-te como se te visse ali, talvez
Comovido de ver-me mulher atarefada de pequeninos, talvez
Curioso, talvez
Silêncio....
Trago-te muito nos dias, como se traz tudo o que nunca se esquece e tudo o que se usa para ser gente.
Trago-te como uma mão essencial à sabedoria de mexer no mundo.

1/03/2013

2013

Este sofá mudou, não foi de sítio, foi de jeito. Eu estou aqui e doem-me as costas. O silêncio. 

Imaginei a cozinha cheia de sons e refogados e copos de vinho a escorrer pela garganta. Olho para ti. O sofá. Pareces triste. Eu com certeza estou à beira do rio. Pareces triste e apetece-me desvendar mapas do tesouro e perguntar se te vais embora um dia. Quer-me parecer que sim, ninguém vive assim com a cozinha apagada, a cheirar a mosaicos e limpo. Ninguém, talvez só eu e tu. Talvez... 

Doem-me os olhos de não chorar.

8/18/2012

Passam por mim. Tu dentro. Ela fora. E eu vou duvidando de ser eu.
O meu BI diz que tenho vinte anos. E uns trocos. Não sei...
Tantos anos atrás de uma água assim que se chorasse sem fim sobre o papel. Afinal afogou-me as palavras.

8/05/2012

Ainda não acredito.

5/18/2012

No teu sofá não serei mais. Uma criança, não serei mais. Sentar-me-ei, as nossas cabeças à mesma altura, as nossas mãos trazidas à tona do mesmo lodo. Terei café e mágoas para ti. No teu sofá serei uma mulher, uma mulher no meu canto antigo de criança e gatos curvada de joelhos demasiado grandes. Tenho a certeza que te entenderei menos, eras tão simples nos teus versos, pianos, rosas, na minha distracção sem altura sem anos...

3/09/2012

Esta suave Primavera que começa que se derrama luz no chão, como quando adormecia ao fundo da tua janela entre o gato e a tua roupa. Era simples assim, eu adormecida e tu ali, para sempre. 

12/19/2011

Tristes são os pombos com as patas secas, não sei se de frio se de maldade. O resto sou eu a apagar o cigarro na minha mão, curiosa de feridas. 

12/16/2011

Lembro-me de caírem botões sobre mim... foi o dia mais triste. Nesse dia passaste a ser para sempre meu e então eu fiquei sozinha para sempre.

11/05/2011

uma ousadia

Parece-me que voltei a encontrar-te, que má pontaria, logo agora, estou atrasada e não sei onde deixei a minha bondade, tenho a certeza que te usarei sem dó que te esgotarei de recortes e asperezas. Mas agora que me cruzei contigo agarro-te o pulso antes que vires costas, espera só um segundo, vou pôr um chapéu de homem e uma blusa encalorada para que fiques confuso e sugiras procurar-me, entender-me. Trago na carteira a fotografia de um palhaço velho preto e branco e olhos azuis, triste, vamos olhá-la, anda, eu gosto de palhaços e tu gostas de lágrimas, cruzamos os pés debaixo da mesa e, espera, encontrei-te. Não quero que me pagues o café e corras para o comboio, levas os meus pés ainda na bainha das calças, tu nem te apercebeste estavas com pressa e era só um café, e como é que eu vou sair daqui agora...

9/23/2011

Biblioteca

Um palhaço pintado, botões dourados nas mangas olhos grandes de peixe azul, sinto-me um palhaço pintado quando deixo a porta em roupas de Domingo e tento encenar que tropeço por acaso em ti na rua.

9/15/2011

nós

Eu e tu existimos só no suor de um bar apinhado de gente, no suor doente de demasiados copos de vinho, no suor do teu braço em volta de mim a ensinar-me a dançar. A voz treme-me por isso existes em mim, e a rua quando passas é uma noite embriagada para onde me atraso... Os teus dentes riem quando me descobres do outro lado da porta por isso existo em ti, nem que só por um instante à noite ou na noite que criamos para podermos dançar e depois amanhece e passamos só na rua e é só rua a rua.

7/05/2011

No Verão a terra ardia e as galinhas procuravam bichos de areia. O sol era uma bochecha cheia de vergonha escondida ao entardecer atrás da casa, ao lado da casa. A casa era a pequena das duas, pedra sem candeeiro ou então era a tarde a encandear-me os olhos e a fazer de todas as paredes uma noite cerrada. A casa cheirava a fumo e restos de almoço num balde, a casa cheirava a ela que depenava uma galinha cheia de bichos de areia, o cabelo branco que foi sempre assim para mim apanhado num rolinho, uns brincos de ouro?... A casa era escura porque não tinha candeeiro ou então era a tarde a encandear-me os olhos ou então era eu ser pequena e os meus olhos não perderem tempo com nenhuma escuridão, eu dormia na casa que era a grande das duas, que tinha escadas, que tinha quartos e camas de ferro, que tinha silêncios de sesta, eu dormia na casa que era branca enquanto as galinhas brincavam sem mim e eu sonhava com elas, com afugentá-las de asas abertas em frente aos meus sapatos, assustadas só o tempo suficiente para um pulo e depois a mesma moleza de penas a bicar o chão vazio. A minha mãe era pequena só um pouco menos que eu e calava-se de calor numa cadeira à porta da casa que era pequena que era de pedra que não tinha luz por dentro que tinha sol por fora. O meu pai... não me lembro. Dizia-me para não arreliar o cão. Os cães, o cão era o grande dos dois. O meu pai guardava-nos a todos para sempre numa cassete. O meu pai talvez voltasse com ele, magro corpo de boina mãos sujas cheias de amendoeiras poços fundos cordeirinhos brancos, sorriso bondoso malandro, eu era pequena não sei se sei o que seria a bondade.
As casas todas tinham portas com fitas de plástico para que não entrassem as moscas. As fitas de plástico também não deixavam entrar o calor...

6/21/2011

Vinte anos

A porta onde fomos engolidos pela lente, assustados como se tivesse dentes, agarrámos-nos as mãos e juntámos as cabeças, não me deixes não me deixes, e sorrimos como se isso nos salvasse da morte certa.

5/14/2011

Acho que. 
Gosto de.

4/26/2011

4/19/2011

Se não posso amar-te encherei então de pão a mesa, de uvas de café de vinho, de copos mais bonitos de nocturnos de Chopin, dobrarei direitas as toalhas, esticarei nas tuas pernas uma manta quente. Serei silenciosa enquanto escreves, bailarina quando me olhares, entre o cheiro do café, da cadeira de baloiço junto à janela. Se não posso amar-te pagarei o jantar e o taxi e tantas diversões quantas queiras até satisfazeres a tua curiosidade do mundo. Se não posso amar-te então esperarei pacientemente que voltes para fazer-te a cama de lavado, um copo de água à cabeceira, as cortinas abertas para que o outono entre sobre ti numa luz que terei planeado, pequeno palco onde te observo da demasiada distância de ser espectadora, nada mais que isso. Se não posso amar-te farei outra coisa qualquer, um interminável trabalho que me ocupe as mãos tão assustadas, se não posso amar-te então amarei o lugar onde és tu, a almofada ou o prato onde descanses.

4/04/2011

João e Maria

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês
Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?
                                 Chico Buarque

3/29/2011

Vê lá não acredites em mim, a noite está cheia de vinho e nuns lábios roxos não se confia, uma boca de aguarela canta desvairada e não sabe das palavras que diz, não acredites em mim mãos bonitas, não me apertes os pés com a manta com as meias com a roupa que vai escorregando que eu sou capaz de te segredar uma cantiga e levar-te para o fundo do mar numa concha de mãos, sereia que encanta um barquinho pequeno. Não acredites em mim que a noite quer tirar-me a blusa que a noite toca contrabaixo e entre o fumo dos cigarros que imagino pousados na mesa da cozinha eu danço como se em volta de uma seda e escondo de ti o que não quero que descubras ainda, encosta-te na cadeira e fuma que eu venho já.

1/31/2011

Disse o professor

"Antigamente morria-se em casas grandes com jardins, com criadas e tias solteiras. Agora morre-se voltado para a parede como um cão".

Palavras bonitas onde menos se espera.
Vontade de derrubar as paredes...