Arrependo-me
de não ter parado de respirar nesse abraço,
(quieta, tão quieta...)
tanto quanto sei poderá ter sido o último,
os teus ossos magros dentro das minhas mãos, envergonhados de encontrar-se ali, outra vez,
nós os dois tão encolhidos e amachucados, umas roupas molhadas
a fingir sol na janela.
4/14/2019
4/11/2019
Nos intervalos em que não há respostas tuas
imagino
as tuas mãos noutro escuro,
o dela quando chega a casa do trabalho no arrepio das 18 horas,
o teu pensamento no meu quarto redondo, onde deverias fazer comigo o que não ousei fazer contigo,
a tua indiferença, afinal, no que escrevo.
E penso
porque é que o teu gelo sempre acendeu as palavras em mim.
imagino
as tuas mãos noutro escuro,
o dela quando chega a casa do trabalho no arrepio das 18 horas,
o teu pensamento no meu quarto redondo, onde deverias fazer comigo o que não ousei fazer contigo,
a tua indiferença, afinal, no que escrevo.
E penso
porque é que o teu gelo sempre acendeu as palavras em mim.
3/28/2019
Abraçar-te é como abraçar-me a mim quando era um anjo descalço, cheio de desenhos na cabeça sobre como fazer o mundo e a minha sala e a minha roupa para amanhã.
Abraço-te e cheiras ao palco que resmungava, cheiras ao dourado quente das luzes nas pálpebras e às finas farpas de chão que dançavam nos meus pés, cheiras à primeira pele ao primeiro gato à primeira pena de almofada solta sob o peso do meu corpo.
Abraço-te e nos teus braços sinto um silêncio macio, como quando eu era um monte de asas a procurar um ninho quente.
Abraçar-te já nem é amor por ti, entendes... é um afago na saudade que eu tenho de tudo.
12/23/2018
Alice
Faço-te uma vénia,
Faço-te uma vénia,
A dança é tua agora
E para mim só a certeza de os dias terem príncipio e fim.
Aperto a tua mão na minha
para que sintas
para que sintas
a Mendiga,
a Núvem de tule,
o Anjo de asas quebradiças, chapéu preto,
o calor das lâmpadas nas pálpebras fechadas, azul, vermelho,
escuro,
as costas dele, o suspiro dele, o sol na cama de gatos e
cotão,
o fugidio recordar da luz na sala, pequenina, quase sombra,
a selva de brincar cheia de folhas e elefantes…
A música. A música...Aperto a tua mão na minha e caminhamos no frio do Natal, ainda não entendes nada mas
para que sintas.
6/12/2017
Escrevi-te. Como sei que escreverei muito tempo, mesmo só ao encostar-me na mesa da cozinha a sorver café quente e a ouvir os pássaros no pátio, a minha pele um ninho redondo de gente, mesmo só ao parar as mãos na roupa engomada e dobrada antes de arrumar, cheia de perfume e vapor.
Apetece-me dedicar-te todo um minuto, porque já foram todos teus e tudo era tão bonito assim.
Gil
Desci, de braço dado contigo, pelo menos um milhão de escadas
e agora que aqui não estás existe o vazio a cada degrau.
Mesmo assim foi breve a nossa longa viagem.
A minha dura ainda, já nem preciso
dos transbordos, dos lugares marcados,
das armadilhas, das humilhações de quem acredita
que a realidade é aquela que se vê.
Desci milhões de escadas de braço dado contigo
não apenas porque talvez com quatro olhos se veja melhor.
Desci-as contigo porque sabia que entre nós os dois
as únicas pupilas verdadeiras, embora tão esfumadas,
eram as tuas.
e agora que aqui não estás existe o vazio a cada degrau.
Mesmo assim foi breve a nossa longa viagem.
A minha dura ainda, já nem preciso
dos transbordos, dos lugares marcados,
das armadilhas, das humilhações de quem acredita
que a realidade é aquela que se vê.
Desci milhões de escadas de braço dado contigo
não apenas porque talvez com quatro olhos se veja melhor.
Desci-as contigo porque sabia que entre nós os dois
as únicas pupilas verdadeiras, embora tão esfumadas,
eram as tuas.
Eugenio Montale
4/27/2017
Alentejo
As rãs falam na
sua língua de rãs, verdes, imóveis como nenúfares de música, o meu cabelo seca
no sol e na almofada, deixa uma mancha de fresco e sabonete, alguns jasmins
estremecem, algumas laranjas acabam de cair dentro da primavera, burros e
grilos passeiam em lugares que não vejo, janelas azuis cheias de calor e telhas
à espera de andorinhas.
As árvores com o
barulho de passos na areia. Com o barulho de saias a girar.
Abelhas. 4/26/2017
24 de Abril
Vês os meus pés a boiar na fotografia?
Estou feliz.
Mas quem me dera ter-te conhecido mais tarde, quase velha, com a certeza de ter-te para sempre, a tua lágrima fácil num cinema de língua estranha, o teu corpo cheio de vapor ao pé do meu nesta água quente de banheira de hotel, apaixonado por mim e pela minha lágrima fácil em cinemas de língua estranha ou ruas com azulejos encardidos e cães mordidos pela solidão, lá fora todo um mundo à espera da nossa salvação, do nosso amor exemplar e mudo de crianças amachucadas de rugas que o tempo sem nós nos deixou, quem me dera ter-te conhecido mais tarde para esta asa insistente de mosquito com o teu cheiro me deixar em paz, sou quase velha e conheci-te há tanto tempo, vai-te embora, vai-te embora, vai-te embora...
4/02/2017
11 anos
Deitada no calor de pinhões e caruma da Caparica a mesma canção sobre cigarros, os olhos fechados. O meu corpo ainda sem nenhum desejo de fumo ou outro vício qualquer. A fingir fome.
3/14/2017
O cão deitado a molhar-me a perna de um bafo quente, cheio de pêlo de verdade, o cão encostado a mim como se eu fosse o mundo todo.
Um silêncio muito grande na casa onde entardecem em perfume os jasmins.
Chega-se mais a mim o focinho a pingar de sono. Os bigodes que existem só na lâmpada que se espalha nas páginas do livro que não aprendo, não aprendo.
O cão aqui junto a mim como um casaco vestido.
2/07/2016
Bicho
Fintamos os minutos, esperamos ser crianças para sempre
e um dia iremos à igreja, é certo que sim.
Mas sabes,
eu tenho quase trinta anos e enquanto tu bebes um refresco em Turim
eu apago a tua cara da minha com borracha e unhas,
quando te encontrar hei-de lembrar-me vagamente dos teus olhos azuis, um formigueiro indeciso,
hei-de passar por ti com o meu filho pequeno ao colo sem dirigir-te palavra.
De onde é que eu conheço aquela cara...
e um dia iremos à igreja, é certo que sim.
Mas sabes,
eu tenho quase trinta anos e enquanto tu bebes um refresco em Turim
eu apago a tua cara da minha com borracha e unhas,
quando te encontrar hei-de lembrar-me vagamente dos teus olhos azuis, um formigueiro indeciso,
hei-de passar por ti com o meu filho pequeno ao colo sem dirigir-te palavra.
De onde é que eu conheço aquela cara...
2/06/2016
10/16/2015
A luz desaparece e leva com ela o azul da casa. Debaixo do candeeiro continua a cor do bule, só a cor do bule, o vapor de perfume do bule.
Ela encheu o copo de vinho, um copo grosso de vidro com uma flor vermelha, e bebe-o agora, nua na cadeira, só a cor do bule no resto da casa apagada, enquanto revê o barulho e o suor do seu corpo ainda um momento antes. A boca cheia de vinho, engole-o devagar, que não se ouça, que ele não ouça. O bule arrefece sem ser visto.
Puta. Disse ele.
Fode-me minha puta.
Ela encheu o copo de vinho, um copo grosso de vidro com uma flor vermelha, e bebe-o agora, nua na cadeira, só a cor do bule no resto da casa apagada, enquanto revê o barulho e o suor do seu corpo ainda um momento antes. A boca cheia de vinho, engole-o devagar, que não se ouça, que ele não ouça. O bule arrefece sem ser visto.
Puta. Disse ele.
Fode-me minha puta.
9/01/2015
Eu quero dizer-te. Que tu me fazes novo. Como quando pisávamos caruma e galhos em calções e botas de lama e costas pesadas, tu eras quase criança e cansavas-te como as tardes encaloradas, eu gostava de ti sem saber dizer como e tu usavas tranças e ainda um resto de infância, eu era um homem e sabia segredos que tu não sonhavas ao procurar o meu braço para descansar os pés do peso do teu corpo, ao deixar na lã do meu casaco o teu cheiro de margarida colhida, quente de sol, ao pedir-me com um risinho umas meias quentes que, eu quero dizer-te, te imaginava a calçar, sentada na beira da minha cama, quase mulher como agora.
5/27/2015
Jantar
Usa de mim o pedaço que quiseres, o que gostares mais, a minha inteligência ou o meu pescoço, usa e deita fora o resto, não deixes nada que me lembre que a minha cama é vazia e o meu coração açoitado, rasga-me em farrapos que não deixem estória nenhuma.
4/27/2015
Sem nos darmos conta acabámos por viver juntos, tu na Pena e eu na Estrela, algumas paragens de autocarro e muitas desculpas entre nós, ou era tarde, ou pesavam-me os olhos, ou então algum rabisco teu a aumentar o caminho entre as nossas portas, mas acabámos por viver juntos porque o teu avô morreu logo com o meu e eu e tu trocámos ser meninos com eles entre meias de leite e croissants e inundações de olhos no Restelo. Acabámos por viver juntos, eu fugia de ti e tu fugias de mim mas matámos a fome de contar estórias no mesmo escuro no mesmo cinema, não entravas na minha casa, não era preciso, fiz-me crescida a beijar-te a boca, sempre, mesmo quando não vivíamos juntos, e assim nunca nos deixámos. Nem que quiséssemos.
9/26/2014
6/08/2014
C.F.
Ontem escrevi-te, no meio do trabalho e da chuva,
Escrevi-te como se te visse ali, talvez
Comovido de ver-me mulher atarefada de pequeninos, talvez
Curioso, talvez
Silêncio....
Trago-te muito nos dias, como se traz tudo o que nunca se esquece e tudo o que se usa para ser gente.
Trago-te como uma mão essencial à sabedoria de mexer no mundo.
Escrevi-te como se te visse ali, talvez
Comovido de ver-me mulher atarefada de pequeninos, talvez
Curioso, talvez
Silêncio....
Trago-te muito nos dias, como se traz tudo o que nunca se esquece e tudo o que se usa para ser gente.
Trago-te como uma mão essencial à sabedoria de mexer no mundo.
1/03/2013
2013
Este sofá mudou, não foi de sítio, foi de jeito. Eu estou aqui e doem-me as costas. O silêncio.
Imaginei a cozinha cheia de sons e refogados e copos de vinho a escorrer pela garganta. Olho para ti. O sofá. Pareces triste. Eu com certeza estou à beira do rio. Pareces triste e apetece-me desvendar mapas do tesouro e perguntar se te vais embora um dia. Quer-me parecer que sim, ninguém vive assim com a cozinha apagada, a cheirar a mosaicos e limpo. Ninguém, talvez só eu e tu. Talvez...
Doem-me os olhos de não chorar.
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