Onde é que estás?
Eu estou à janela, à janela num álbum de fotografias e está a chover. Está a chover sobre a tua cara quando eras mais pequeno, e na cara dele antes de cortar o cabelo. E está a chover na chaveninha de esmalte do chá que ela tem na mão.
Não percebo de onde vem tanta chuva, já passou tanto tempo já devia ser primavera, com as papoilas primeiro e as magnólias em agosto, já devia ser primavera agora já já...
Depois percebo.
Vagueio na rua como um velho. Na rua dos velhos há sempre chuva, chuva daquela molha-tontos, entendes? Não é que o caminho esteja a acabar, não não é nada disso, continua, continua muito vejo-o até muito bem aqui da janela, estás mais velho lá ao fundo, tu, e o cabelo dele voltou ao desalinho, como se fosse primavera, cabelo campo azul de alfazemas...
O problema é olhar para trás. Esta maldita chuva a pôr neblina em todo o lado, quando olho pela janela que dá para as traseiras percebo sempre que não há como voltar lá, maldita neblina esta, não há como dar com o caminho para trás...
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