Quando tinhas o cabelo grande eu tinha um casaco vermelho a perder a cor ao pé das costuras. Tinha uns sapatinhos vermelhos para dançar na praia, com uma mancha de alcatrão esfarelado. Tinha o cabelo cheio de terra e olhos pequeninos de sono, e os lábios tão sem dizer nada de quem via nascer o sol pela primeira vez, com as núvens a engolirem-me vindas do mar. Tinha os dedos apertados por outros dedos que não tinha apertado nunca, tinha todo o corpo caído no chão enquanto falavas de gente que se levanta e sabe voar, voar e cortar as sombras como luvas brancas, pés como gatos pequenos entre chávenas de colecção.
Quando tens o cabelo rasteiro como caruma eu tenho um sofá azul, um sofá azul e uma garrafa verde numa mesa, falamos baixo e às vezes rimos, vamos pintando os lábios sem espelho até serem quase doentes, até serem quase azuis e o sol nascer neles, nascer neles e um de nós se levantar para ir sacudir a luz das mangas e poder ir para a cama às escuras, levantamo-nos e cortamos as sombras, como luvas brancas, até se ouvir a porta a fechar e a porcelana das chávenas tilitar de frio...
11/09/2007
segunda porta à direita
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