1/03/2011

1 de Janeiro, 2011

Na casa quieta ouço nos vizinhos de cima o virar das horas, feliz ano novo engulo as passas de um trago. Peço que desapareça a caixa do armário com o seu cotão tão gentil, peço que me perdoem que batam à minha porta com um ano passado nos braços que eu prometo não o esbofetear não chorar no seu corpo magoado.
Homem, há muito tempo que não sou mais que uma diva encarquilhada em fotografias velhas, eu pensei que caberias num cubículo mas fui eu quem minguou até não ser mais que um vestígio de olhos enxaguados. Silêncio, só silêncio... e esta música velha de quando o mundo mudava só por existirmos nele, arrogantes criaturas cheias de versos. Eu não sou arrogante, que lembro eu de como pássaro rima com piano, búzio com papagaio de papel. Eu eu eu que anedota eu que roubo dos outros os risos que sorvo deles o começar de uma nova dança, eu que engulo de um trago as passas sem nada desejar, que desejar, risada seca como um caroço, eu que nunca irei salvar o mundo nem sequer deixar nele um lume que permaneça até o mundo acabar.

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