1/15/2011

Bonito homem na mesa. 
Ela ficou a olhar para ele sem olhar muito, não gosta que vejam nela o que ela está a ver. Bonito homem na mesa, a rir e a derrubar copos de vinho, dentes brancos que não tingem com o passar das horas. Ela pousou o queixo na mão fechada e ficou a olhar para ele como se os gestos fossem mármores trabalhados, macios debaixo do frio de todas as coisas de pedra. Ela tentou sorrir de volta como fazem as mulheres, tentou acreditar nuns lábios vermelhos que não trazia na bolsa. Ela é baixa como as coisas pequenas que enfeitam os sítios pequenos, pequenina e curva, ela caminha nas pontas dos pés para quase não tocar no chão para quase ser como uma coisa que se sopra e se aninha noutro canto qualquer. Mas ontem ela desejou ser enorme, fazer barulho ao andar, rir alto como os demónios e ter uma boca grande e escancarada que engolisse o homem e o guardasse quieto dentro do peito junto às outras coisas preciosas. O bonito homem na mesa nem a viu nem soube que ela dança, às vezes, quando algum homem lhe oferece a mão ou a palavra. Ela ficou a olhar para ele sem olhar muito, não gosta que vejam nela o que ela está a ver e ninguém viu.

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