1/06/2011

Minha querida, quando o pó sussurrava e mulheres sem tecto guardavam borboletas no cabelo, quando a tua mãe era jovem como as margaridas e no teu chão nos sentávamos todos em volta de um espaço vazio de um fogo imaginado, quando punhas flores no teu cabelo para que a primavera nunca desaparecesse, quando os homens eram peixes que traziam no seu próprio corpo o brilho de todas as lâmpadas de todos os charcos debaixo de lua cheia, lembro a tua casa onde nos escondíamos do passar das horas ouvíamos repetida sempre a mesma música esperando que se tornasse verdade, enfeitávamos os nossos rostos de restos de coisas de restos de viagens de paisagens de cheiros de sujo, minha querida lembro a tua casa como se hoje fosse muito velha e a tua casa qualquer coisa impossível que aconteceu há muito tempo, guardada entre uma pilha de cartas apertadas num laço de cetim. O que é triste é belo, dizia ele, o que é triste é belo e hoje sou com certeza muito bela. E lembro-te, dezanove anos, todos os animais se empilharam muito alto para roubar um pedacinho da lua e o peixe no lago pensou se não a veriam mesmo ali a boiar na água...

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