3/31/2009


Nas minhas mãos guardo memórias de acenos, tecidos, cascas de árvore, alfazema, do teu cabelo que adormeci.

3/30/2009

rituais

O roupão tem flores roxas e outras amarelas. É velho e pálido. Tem um bolso onde ela guarda a esponja depois de bem espremida. Ela aperta o roupão com um laço de lado e abre a porta. No quarto fecha-se. O quarto tem segredos, tem linhos e sapatos vermelhos. Ela aperta o cabelo com uma fita castanha e põe-lhe laca com os olhos fechados, passa os dedos nos fios que ficam soltos, alisa-o para dentro de ganchos pretos finos. Vê o perfil no espelho, costas direitas queixo para cima. Traça os olhos, só os cantos das pálpebras, só as últimas pestanas, um risco pequeno, quase invisível não fora os olhos parecerem afundados de repente, lápis cinzento, não preto. Dilui a cor com um gesto da ponta do dedo. Vê o perfil no espelho, costas direitas queixo para cima. Veste-se de preto, deixa escorregar o vestido pelas costas até ao fundo das pernas, o vestido tem um botão no pescoço e as costas abertas, as sabrinas são de cetim bem engomado. Vê o perfil no espelho, costas direitas, queixo para cima, vê-se de frente no espelho, os dois olhos alinhavados de escuro como quem não dormiu, os lábios secos mal cuidados, brancos, morde o lábio de baixo até ter um rasgo vermelho. Duas pérolas pequenas ao longo do pescoço. Ela aperta as mãos uma na outra, ouve os dedos estalar, ela tem medo e sai.

Ela cheira a perfume de um homem.
Ela é um palhaço.

3/27/2009

escrevo-te a ti

Às vezes deitas-te e acordas na outra ponta da cidade, perguntas-te que mãos te pousaram em tão maus lençóis. Tens duas caras, lua-cara, Lua-nova-olhos-cegos, somos os da noite os que não dormem os que se afogam os que cantam os que choram o corpo nú, tão desgraçado, brindemos à embriaguez desta primavera saturada de perfume e deixemo-nos cair, na outra ponta da cidade, sem orgulho, sem desamor, toma o meu corpo se queres hoje sou transparente amanhã serei de novo um deus. Tantas asas pousam numa flor... a minha vergonha um pouco poema...

pensatempos

O miúdo do acordeão cresceu comigo. Eu era pequena e ele era pequeno, sentado na calçada com um caozinho cantor. Ele era pequeno e eu, então pequena, pensava que todos os pequenos aprendiam a ler na escola até às cinco da tarde, e tinha-lhe uma pena invejosa pelas tardes soalheiras entre azulejos e frontarias caiadas. Hoje tenho um metro e sessenta e ele é maior que eu, eu deambulo na tarde soalheira de lisboa e ele continua parado no passeio, enche a rua de convites para dançar que imagino aceitar desde criança (desde criança, soa estranho, o que sou agora então?). Mudaram as cores atrás dos vidros que espreito para arranjar o cabelo entre os passos, lisboa continua velha, desmanchada entre árvores retorcidas nas escadarias, varandas cheias de pombos, lisboa continua bonita... o garoto toca acordeão, sempre a mesma música, e eu, garota, fecho os olhos, e lisboa roda, com as suas calçadas e os carrinhos de gelados, como uma caixinha de música cheia de pó. Invejo-lhe as cantigas, bilhete tão fácil para a minha pequenice.

O velho do violino desapareceu. E eu sempre com vergonha de lhe dizer que nunca me vou esquecer da cara dele. Lisboa morreu um bocadinho.

3/17/2009

Aceito o desafio: o que me faz feliz


O sol no inverno, os primeiros dias de sol. Sento-me na beira da estrada do hospital antes de entrar para a aula e deixo o sol amolecer-me a agilidade. Enterro a cabeça nos joelhos e deixo queimar as costas por baixo da roupa de lã, e adormeço numa terça-feira, feira da ladra, qualquer.


Ir ao supermercado, fim de tarde, escolher com minúcia tudo o que gosto: Iogurte natural, bolachas de canela, broa de milho, amêndoas com casca, pimento vermelho, chocolates Regina.

Vestir a roupa de trabalho.

Sentir o cabelo crescer até um dia a franja não precisar mais de gancho.

Deixar a bicicleta descer a estrada sem pedalar, fazer curvas, com medo, deixar a neve cair na língua, chegar a casa com a boina cheiinha de branco. Ou abraçar-te as costas enquanto nos pedalas, aos dois, numa bicicleta só.

Camisas de linho bordadas. Saias que rodam quando danço. Sapatos que deixam sentir o chão.

Um quadradinho de chocolate que não devia comer.

Lembrar-me. Voltar.

O meu jardim e as minhas socas vermelhas. Lavar as flores, aparar-lhes o cabelo...

Quando o meu corpo cabe sem defeito no corpo de alguém.

Dançar. Ou imaginar que danço, quando ouço músicas velhas...

Chegar a uma cidade que nunca vi e imaginar-lhe varandas, azulejos, pedintes, livrarias a cheirar a pó, montras cheias de chapéus.

3/16/2009

Ela disse:

Hoje não falem comigo.
Eu ontem chamava-me Eu e hoje estou enfurecida como um Relâmpago.
Não há nada subtil em Ti. Não há primavera em Ti.
Mas já houve.
E eu quero enlamear-me nos girassóis.

Depois, esvaziou um porto.
E afundou-se no sofá.

E esperou que alguém lhe pagasse um copo.



3/10/2009

O velho

Eu gostava que nunca me incomodasse. Os cantos da boca brancos, secos, a pele de jornal, as mãos apertadas de fios que sabem se respiras, se o teu coração está quente, os olhos amarelos de malmequer murcho. Gostava que não me incomodasse, a cama recebe-te e não há fotografias de ninguém à beira da almofada, nem pastéis de nata que as mães sempre trazem, tu já não tens mãe, pois não? Gostava que não me incomodasse... os passos de algodão de quem entra e não quer acordar-te para não perguntar Então como está hoje? Está melhorzinho?, eu abeiro-me da cama e viro as folhas quase sem dedos, quase sem abanar o ar, gostava que não me incomodasse a rouquidão com que te dói o que tens dentro, a rouquidão com que olhas para mim e me dizes, sem mexer a boca de cortiça, que queres namorar comigo. Porque vais ter para sempre vinte anos, mesmo que a tua pele tenha estórias velhas, que as tuas mãos façam tremer fios que fazem tremer máquinas, que o teu coração já se canse de apanhar borboletas e que os teus olhos se molhem sozinhos. Tens vinte anos, eu também tenho vinte anos, sei que estás cansado de passar o dia de pijama.

A 10 de Março de 2009

Folha branca. 1 hora.
Bata branca. Bata branca. Bata branca. 3 horas.
Folha branca sobre mesmo assunto que a bata branca. 1 hora.

Empadão de atum. 20 minutos.

Bata branca e homem enfezado. 30 minutos.

Bata branca e mulher com um furo. 1 hora.
Bata branca e sorrisinhos para o professor, tentativa de suturar uma esponja. 30 minutos.

Filme. 2 horas. Ahhhhhhhhhhhhhh...

Tomates cherry com parmesão. 5 minutinhos.

Sopa da mãe. O tempo que demorou a soprar a fervura de cada colher.


E o sol lá fora!...

3/07/2009

Mudei de visual!
Que tal?

3/06/2009


HOJE CRESCI O QUE AINDA ME FALTAVA.


(e digo-o com uma tristeza muito grande...)

2/26/2009

walking with the bike














Dois minutos antes estava espalmada no chão e a bicicleta rodava sozinha no ar.

Gosto de andar de bicicleta e de esfolar os joelhos.

2/25/2009

depois de escrever fica um vazio... como se já tivesse dito tudo, para sempre.
CHEGA DE ESCREVER AS ESTÓRIAS FORA DE PRAZO.
sou uma cabrinha, não sou?
sou uma cabrinha fora de prazo.
e as andorinhas partiram com a primavera.

apetece-me um copo de vinho.
mas não se bebe vinho em casa dos meus pais.
nem se fuma às escondidas com a minha boca.

adeus cortina de veludo cheia de luzes penduradas .
olá casaquinho branco.
comprido.
manchado.
deus pequenino de velhas sem cabelo e homens de pantufas.
dobrem-se nas minhas pernas e tragam pequeninos brindes.
não mais vos encantarei com vestidos emprestados
mas um dia ainda poderei ouvir-vos o coração bater...

2/24/2009

Havia sempre silêncio, só um momento, quando o comboio arrancava ou enquanto encaixava a palhinha no furo do copo, rabugenta, então havia um silêncio e tu paravas o meu rosto. Tentava imaginar a minha cara como se pudesse vê-la, a ponta da língua de fora a tricotar, o lábio de baixo mordido, a boca aberta a olhar as caixinhas de música em forma de carroussel, os aviões de madeira, os olhos fechados enquanto lias poemas embriagado de mim, com a voz esfarelada de mim. Havia sempre o teu silêncio de olhar para mim, como se um fio de formigas passasse nas minhas bochechas, paravas e olhavas para mim minucioso, calado, e sempre soube que esse silêncio era meu, era o teu silêncio de inventar-me, era o teu silêncio de conhecer-me outra vez. E depois voltavas ao que quer que fosse que fazias antes de eu te ter distraído sem querer. Mas eu sabia…

2/10/2009


Imagino hoje as casas dos velhos, carregadas de fotografias numa exaustão de não-esquecer, de ver crescer netos emoldurados em vidros sempre encolhidos. Imagino hoje, o meu xaile seca no aquecedor, também as luvas. O meu xaile estava molhado da neve, a neve não cai, a neve balouça até ao chão e quando passa em frente a uma lâmpada demora mais tempo e improvisa piruetas para se fazer bonita. Antes não tinha xaile, encontrei-o antes de chegar e trouxe-o enrolado no pescoço, e agora a neve cai sempre em mim e na lã do xaile, e no meu cabelo escorrido de água, até sermos uma figura pequena polvilhada de açúcar. Aconchego-me nele, aqueço-o com a minha boca escondida, estendo-o pelas costas quando espreito pela janela para sorrir às galinhas e ao gatinho molhado e frio. E faz um silêncio, um silêncio em que a chuva é branca e boceja antes de cair, em que os pássaros bicam a lama e o vento fica quieto, como nas aguarelas das estórias de adormecer polegarzinhas. E imagino a minha casa de velha, carregada de fotografias numa exaustão de não-esquecer, de ver crescer netos emoldurados em vidros sempre encolhidos. E o meu xaile num banquinho, como outros terão bules ou vestidos de noiva, numa exaustão de não esquecer a neve na língua quando a bicicleta ainda me fugia das mãos, cortando rápida o ar esmigalhado de gelo.

2/05/2009

1/31/2009

A boleia

Se a levares no carro, ela vai brincar com os óculos de sol cor-de-laranja, vai rir-se para ti e ver-se no espelhinho, vai ajeitar-te o cabelo e depois hesitar os dedos dela nos teus dedos. Vai ficar séria, depois, e olhar sozinha pela janela a pensar em coisas que não sabes. Vai encostar o nariz no vidro e fazer figurinhas de vapor com o dedo e não vais poder ver-lhe a cara, não vais poder ver os pingos a escorrer do queixo. Depois vai brincar com os óculos de sol cor-de-laranja e vai rir-se para ti e ver-se no espelhinho, vai trocar o CD, ela que costumava zangar-se quando pedias para escolher a música, e vai deixar ficar os óculos de sol a disfarçar os olhos vermelhos. Tu vais conduzir o carro e olhar para o relógio para saber quanto tempo falta até que tudo se desfaça como uma estória de jornal na água de um alguidar, ela não precisa do relógio porque a estrada arranha-a como se ela fosse a roda sempre a girar, quando sentir a curva a chegar vai pousar os óculos e esconder as mãos entre as pernas e morder o lábio de baixo para não chorar. Ela conhece-te... Sabe que não voltará a ver-se, no espelhinho, com os óculos de sol cor-de-laranja.
Ela fecha a porta e jura nunca mais te reconhecer na rua, jura nunca mais hesitar os dedos dela nos teus, jura odiar o umbigo dela nas tuas costas. E tu acreditas.

O vento desvairado lá fora.
As camélias são flores cheias de solidão e doçura,as camélias guardam toda a chuva e frio de janeiro mas acordam brancas e macias como bochechas de menina. A minha flor está lá fora sozinha, e ouço o vento troçar dela dizer-lhe que é pequenina que vai arranhar-lhe os olhos fechados que vai arrancar-lhe o perfume dos dedos...

O que fizeste com o meu corpo? O meu corpo serpenteava por entre os peixes e encontrava nenúfares para pousar os pés, o meu corpo serpenteava entre o teu corpo e tínhamos escamas reluzentes e a chuva era bem vinda na nossa janela e deixávamos que ela nos molhasse os cabelos, o teu corpo era um lenço no meu corpo o teu corpo enchia-me de tristeza, era morno e acolhedor como um ninho e eu sabia que um dia o vento chegaria desvairado para levar-te com ele, por isso imagino que o teu corpo se enlaça na minha flor e lhe sussurra cantigas de embalar, a minha flor é doce e só e o teu corpo é feito de linho é feito de terra soalheira, o teu corpo levou-me com ele e a minha flor é nossa, as nossas mãos agarradas há tanto tempo riscaram um ramo verde, e a nossa flor é doce e só...

1/30/2009

o reclame

A televisão fala alto e não consigo encontrar o fio à meada do que me vai pela cabeça. Tenho esta urgência de falar de um assunto que não consigo ouvir qual é, a televisão fala tão alto, homens que se culpam e se desculpam dos pontapés que vão dando uns nos outros pelo caminho, a musiquinha que volta e meia anuncia a estória triste de alguma família que só será contada no fim do telejornal. A televisão fala alto, não consigo escrever.
Ontem de manhã a loja do cidadão abriu às oito e meia. Às nove da manhã a maquina de senhas para levantar o cartão de cidadão tinha uma folha colada: "Por motivo de avaria no sistema informático o serviço encontra-se atrasado". Foi a terceira vez que dei com aquela etiquetazinha atenciosa, mas nunca pensei que lá estivesse logo pela manhã, com o computador acabadinho de acordar... Noutro canto uma velhota tentava pagar a electricidade com um homem que namorava no computador e que a mandava para uma máquina de pagamentos que ela não sabia domar. Estava desejoso de continuar a sorrir para o computador e o raio da velhota que não percebia nada de máquinas sempre a reclamar por ajuda... Entretanto, uma mulher loira de chapéu de cobra chegou acompanhada de um segurança e sentou-se ao balcão para ser atendida, sem tirar senha, sem se sentar primeiro, como todos os outros ensonados, nas cadeiras de espera. Perguntei-me porquê e apeteceu-me morder-lhe a cobra do chapéu enquanto ela se aconchegava de perna cruzada na cadeira ao balcão, cheia de sorrisos que só existem na cara dos que não esperam e não se atrasam para o emprego...
Não era nada disto que eu queria dizer, mas o telejornal só acabou agora e o que eu tinha para dizer era muito mais dificil.

1/27/2009