3/31/2009
3/30/2009
rituais
Ela cheira a perfume de um homem.
Ela é um palhaço.
3/27/2009
escrevo-te a ti
pensatempos
O velho do violino desapareceu. E eu sempre com vergonha de lhe dizer que nunca me vou esquecer da cara dele. Lisboa morreu um bocadinho.
3/17/2009
Aceito o desafio: o que me faz feliz
O sol no inverno, os primeiros dias de sol. Sento-me na beira da estrada do hospital antes de entrar para a aula e deixo o sol amolecer-me a agilidade. Enterro a cabeça nos joelhos e deixo queimar as costas por baixo da roupa de lã, e adormeço numa terça-feira, feira da ladra, qualquer.
Ir ao supermercado, fim de tarde, escolher com minúcia tudo o que gosto: Iogurte natural, bolachas de canela, broa de milho, amêndoas com casca, pimento vermelho, chocolates Regina.
Vestir a roupa de trabalho.
Sentir o cabelo crescer até um dia a franja não precisar mais de gancho.
Deixar a bicicleta descer a estrada sem pedalar, fazer curvas, com medo, deixar a neve cair na língua, chegar a casa com a boina cheiinha de branco. Ou abraçar-te as costas enquanto nos pedalas, aos dois, numa bicicleta só.
Camisas de linho bordadas. Saias que rodam quando danço. Sapatos que deixam sentir o chão.
Um quadradinho de chocolate que não devia comer.
Lembrar-me. Voltar.
O meu jardim e as minhas socas vermelhas. Lavar as flores, aparar-lhes o cabelo...
Quando o meu corpo cabe sem defeito no corpo de alguém.
Dançar. Ou imaginar que danço, quando ouço músicas velhas...
Chegar a uma cidade que nunca vi e imaginar-lhe varandas, azulejos, pedintes, livrarias a cheirar a pó, montras cheias de chapéus.
3/16/2009
3/10/2009
O velho
A 10 de Março de 2009
Folha branca. 1 hora.Bata branca. Bata branca. Bata branca. 3 horas.
Folha branca sobre mesmo assunto que a bata branca. 1 hora.
Empadão de atum. 20 minutos.
Bata branca e homem enfezado. 30 minutos.
Bata branca e mulher com um furo. 1 hora.
Bata branca e sorrisinhos para o professor, tentativa de suturar uma esponja. 30 minutos.
Filme. 2 horas. Ahhhhhhhhhhhhhh...
Tomates cherry com parmesão. 5 minutinhos.
Sopa da mãe. O tempo que demorou a soprar a fervura de cada colher.
E o sol lá fora!...
3/07/2009
2/26/2009
walking with the bike
2/25/2009
sou uma cabrinha, não sou?
sou uma cabrinha fora de prazo.
e as andorinhas partiram com a primavera.
apetece-me um copo de vinho.
mas não se bebe vinho em casa dos meus pais.
nem se fuma às escondidas com a minha boca.
adeus cortina de veludo cheia de luzes penduradas .
olá casaquinho branco.
comprido.
manchado.
deus pequenino de velhas sem cabelo e homens de pantufas.
dobrem-se nas minhas pernas e tragam pequeninos brindes.
não mais vos encantarei com vestidos emprestados
mas um dia ainda poderei ouvir-vos o coração bater...
2/24/2009
2/10/2009
Imagino hoje as casas dos velhos, carregadas de fotografias numa exaustão de não-esquecer, de ver crescer netos emoldurados em vidros sempre encolhidos. Imagino hoje, o meu xaile seca no aquecedor, também as luvas. O meu xaile estava molhado da neve, a neve não cai, a neve balouça até ao chão e quando passa em frente a uma lâmpada demora mais tempo e improvisa piruetas para se fazer bonita. Antes não tinha xaile, encontrei-o antes de chegar e trouxe-o enrolado no pescoço, e agora a neve cai sempre em mim e na lã do xaile, e no meu cabelo escorrido de água, até sermos uma figura pequena polvilhada de açúcar. Aconchego-me nele, aqueço-o com a minha boca escondida, estendo-o pelas costas quando espreito pela janela para sorrir às galinhas e ao gatinho molhado e frio. E faz um silêncio, um silêncio em que a chuva é branca e boceja antes de cair, em que os pássaros bicam a lama e o vento fica quieto, como nas aguarelas das estórias de adormecer polegarzinhas. E imagino a minha casa de velha, carregada de fotografias numa exaustão de não-esquecer, de ver crescer netos emoldurados em vidros sempre encolhidos. E o meu xaile num banquinho, como outros terão bules ou vestidos de noiva, numa exaustão de não esquecer a neve na língua quando a bicicleta ainda me fugia das mãos, cortando rápida o ar esmigalhado de gelo.
2/05/2009
1/31/2009
A boleia
Ela fecha a porta e jura nunca mais te reconhecer na rua, jura nunca mais hesitar os dedos dela nos teus, jura odiar o umbigo dela nas tuas costas. E tu acreditas.
As camélias são flores cheias de solidão e doçura,as camélias guardam toda a chuva e frio de janeiro mas acordam brancas e macias como bochechas de menina. A minha flor está lá fora sozinha, e ouço o vento troçar dela dizer-lhe que é pequenina que vai arranhar-lhe os olhos fechados que vai arrancar-lhe o perfume dos dedos...
O que fizeste com o meu corpo? O meu corpo serpenteava por entre os peixes e encontrava nenúfares para pousar os pés, o meu corpo serpenteava entre o teu corpo e tínhamos escamas reluzentes e a chuva era bem vinda na nossa janela e deixávamos que ela nos molhasse os cabelos, o teu corpo era um lenço no meu corpo o teu corpo enchia-me de tristeza, era morno e acolhedor como um ninho e eu sabia que um dia o vento chegaria desvairado para levar-te com ele, por isso imagino que o teu corpo se enlaça na minha flor e lhe sussurra cantigas de embalar, a minha flor é doce e só e o teu corpo é feito de linho é feito de terra soalheira, o teu corpo levou-me com ele e a minha flor é nossa, as nossas mãos agarradas há tanto tempo riscaram um ramo verde, e a nossa flor é doce e só...
1/30/2009
o reclame
Ontem de manhã a loja do cidadão abriu às oito e meia. Às nove da manhã a maquina de senhas para levantar o cartão de cidadão tinha uma folha colada: "Por motivo de avaria no sistema informático o serviço encontra-se atrasado". Foi a terceira vez que dei com aquela etiquetazinha atenciosa, mas nunca pensei que lá estivesse logo pela manhã, com o computador acabadinho de acordar... Noutro canto uma velhota tentava pagar a electricidade com um homem que namorava no computador e que a mandava para uma máquina de pagamentos que ela não sabia domar. Estava desejoso de continuar a sorrir para o computador e o raio da velhota que não percebia nada de máquinas sempre a reclamar por ajuda... Entretanto, uma mulher loira de chapéu de cobra chegou acompanhada de um segurança e sentou-se ao balcão para ser atendida, sem tirar senha, sem se sentar primeiro, como todos os outros ensonados, nas cadeiras de espera. Perguntei-me porquê e apeteceu-me morder-lhe a cobra do chapéu enquanto ela se aconchegava de perna cruzada na cadeira ao balcão, cheia de sorrisos que só existem na cara dos que não esperam e não se atrasam para o emprego...
Não era nada disto que eu queria dizer, mas o telejornal só acabou agora e o que eu tinha para dizer era muito mais dificil.
