9/28/2006

meteorologia

Escrevo www.meteo.pt e fico horas a olhar para nuvenzinhas electrónicas que chovem em faro e coimbra num portugal em ponto pequenino. Não sei mais por onde hei-de ir, fico horas a ver chover assim em ponto pequeno e corro o país inteirinho, mato a minha fome de lugares e de fugir de casa. Ao ver assim tudo tão pequenino parece que espreito no fundo de uma caixa de legos, dá-me vontade de rir por ter assim um passaporte tão fácil para a infância, gosto da pequenice porque crescer é esconder muita poeira debaixo dos tapetes, tapetes secretos cheios de poeira secreta capaz de fazer espirrar qualquer armadura de ferro…
Mas não espreito as nuvens para ser pequena. Espreito-as porque não há mais nada para fazer, é de noite e há um silêncio caladinho, ouve-se o frigorífico com seu zumbido de adormecer fatias de queijo flamengo. Mais nada. As janelas estão fechadas, estou fechada aqui, e a única paisagem que tenho é a deste portugal encolhido, onde chove chove sem parar mas nem sequer uma gota escorre pelo teclado, podia escorrer, aproveitava-a para pôr na jarra das rosas que estão a murchar, bebia-a para empurrar o pão seco na garganta, deitava-a na mesa e desenhava-te a rir para mim, para me fazeres companhia na caminhada pela serra da estrela e pelas vinhas do douro que imagino debaixo daquela nuvem mais cinzenta e choramingona, podia escorrer e bater-me na mão e acordar-me e fazer-me arranjar uma janela que não fosse de computador, uma janela que tivesse vento, vento de verdade!...
Mas não acredito, crescer aqui é ter uma serrazinha só para passear a ponta do dedo, ser sempre gigante com mãos gordas de mais para apanhar bichinhos-de-conta, sou como um girino no lago, vou crescendo crescendo, e apesar do meu corpo estranho e esguio hei-de acabar sempre como eles todos. Uma rã.

9/18/2006

num envelope com risquinhas azuis e vermelhas

Lembro-me de querer ir filmar o mar. 60 segundos de filme com a máquina fotográfica digital, só 60 segundo de espuma, aquela beirinha de espuma que desarruma a areia numa linha muito comprida. 60 segundos de espuma mas sem barulho de mar, eu enchia os segundos todos com uma música do Bregovic, uma daquelas de enfurecer as lágrimas se as tiveres escondidas, chicoteiam-te as pestanas até as deixares sair...
Mas o silêncio também era bom para veres o mar.
Pensava em ir filmá-lo para ti, 60 segundinhos de silêncio para cheirares o sal, para esfriares a pontinha do nariz, para enterrares os pés na linha de areia muito comprida... 60 segundos para vires a casa, nem ias ter tempo para lhes inventares uma música.

9/17/2006

O único dever de um contador de estórias é contar uma estória

Eu não estou a tentar dizer nada.
É essa a minha busca.


Dizia Katurian, em The Pillowman

( : sono )

O meu sono é entrançado.
Cruzo rendas e caminhos enquanto durmo
e tacteio as margens bordadas do meu cansaço.
De dia
deito-me entre as laranjas que escorregam das árvores
devagar.
Toco-as, respiro-as.
Às vezes recorto as cascas vivas
e faço tranças e rendas
para me poder vestir
de vitaminas e sol.
Com os caroços faço colares enormes
que prendo no cabelo
e que depois desfaço
para contar os dias.


É um poema de alguém...

brincadeirinha

Agarrar-te a voz pela mão, pelo olhar...
Agarrar-te a sombra pelos cabelos e sorrir baixinho para não te acordar,
o suficiente para brincar com o nosso sentimento.

9/16/2006

coimbra

Coimbra ontem. Vazia, coimbra fica vazia no verão. Ninguém é de coimbra, a coimbra pertencem só as capas negras e os livros grandes, e as janelas das republicas, as ruazinhas onde adormecem copos de vinho. Mas ninguém pertence a coimbra. Coimbra é um aconchegozinho onde nos perdemos por uns anos, umas horas, uns segundinhos... para depois voltar à correria da nossa casa, seja ela na cidade ou no campo, a nossa casa que anda sempre a correr porque é nossa e nela correm caixinhas e baús de cartas e fotografias e tios, correm como seiva. É em coimbra que a festa se passa e no entanto é lá que me sinto sempre estranhamente adormecida, como se sonhasse e o tempo nunca passasse. Ando naquelas ruazinhas e assim desligada da minha casa sinto quase como se me tivessem concedido mais tempo de vida, um tempo fora de mim, das minhas paredes das minhas molduras... Sou só eu, só eu e o meu tempinho precioso de brincar às meninas crescidas.

9/12/2006

na sala há um relógio com ponteiros que andam para trás

Onde é que estás?
Eu estou à janela, à janela num álbum de fotografias e está a chover. Está a chover sobre a tua cara quando eras mais pequeno, e na cara dele antes de cortar o cabelo. E está a chover na chaveninha de esmalte do chá que ela tem na mão.
Não percebo de onde vem tanta chuva, já passou tanto tempo já devia ser primavera, com as papoilas primeiro e as magnólias em agosto, já devia ser primavera agora já já...
Depois percebo.
Vagueio na rua como um velho. Na rua dos velhos há sempre chuva, chuva daquela molha-tontos, entendes? Não é que o caminho esteja a acabar, não não é nada disso, continua, continua muito vejo-o até muito bem aqui da janela, estás mais velho lá ao fundo, tu, e o cabelo dele voltou ao desalinho, como se fosse primavera, cabelo campo azul de alfazemas...
O problema é olhar para trás. Esta maldita chuva a pôr neblina em todo o lado, quando olho pela janela que dá para as traseiras percebo sempre que não há como voltar lá, maldita neblina esta, não há como dar com o caminho para trás...

postalinho

As coisas pequeninas têm-me dado prazer. Deitar-me tarde para ficar mais um bocadinho a ouvir violinos na aparelhagem, ou a escrever tontices de menina em cantinhos de folhas já usadas de livros já transbordantes de estórias, mas sempre um cantinho para mais uma, sempre mais uma... Ainda no outro dia chegou o nevoeiro pela primeira vez, não corri para casa como devia, comprei uma garrafa de leite com chocolate e aninhei-me entre as pedras do palácio, as pedras continuam quentinhas mesmo muito depois de o sol ter desaparecido... No meio do nevoeiro tenho sapatos amarelos. Não sei se se lembram dos sapatos amarelos, da peúga laranja e da outra peúga azul, da cor da capa do livro de filosofia, do lugar ao pé da janela na faculdade por onde fugimos uns momentinhos quando o professor escreve no quadro para voltarmos quase ao mesmo tempo com carinha sacana de borboleta que se encostou nas laranjas lá em baixo... Não sei se se lembram do palco a ranger ao ver-nos de pijama e pés sujos, ou da primeira vez que viram o sol nascer, no nevoeiro eu lembro-me de tudo como se estivesse tudo atrás de um véu de tule, os cheiros aparecem todos vindos dos buraquinhos do tecido e é como um copo de vinho ou de bagaço entra pela boca e deixa o corpo quentinho... Os olhos tornam-se olhos de gato que vêm no escuro, ele deixa de ser um tonto para ser um palhaço triste belo, é maravilhoso como ainda saem frases bonitas da boca luzidia de copos e eu que não via, que não percebia que ele é bonito mesmo assim, o lenço no pescoço e os caracolinhos a dormir...
As coisas pequeninas têm-me dado prazer, não escondo que sonho com uma vida pequenina onde tenha para sempre sapatos amarelos, sempre amarelos só um bocadinho mais dobrados de andar e as solas a desaparecer, sim quero ter um mapa de muitos caminhos onde já andei, quero pôr marcas de tesouro nos lugares onde cair para saber que ali dobrei um bocadinho mais os sapatos, ajoelhei-me e inventei um deus de céu azul e esperei que o nevoeiro chegasse para ver os meus sapatos novos e os teus lenços e a tua barba áspera a fazer-me cócegas nas bochechas para depois continuar continuar continuar... Os meus olhos a crescer a crescer até serem sacos muito grandes de nevoeiro e sapatos amarelos em graus diferentes de latitude, e as tuas botas da tropa grandes demais para mim, e o teu gancho em forma de lacinho cor-de-rosa, e o teu lenço azul clarinho com florinhas brancas, e os paus grandes de giz de pintar o alcatrão...
As coisas pequeninas têm-me dado prazer, beber um copo de vinho só para lhe apreciar a cor de lábios mordidos e esquecer o amargo na boca, dançar como se fosse linda com uma saia que gira, a música arrepia-me e tenho vontade de escrever só escrever as porcarias todas que eu vejo porque é tudo tão lindo e eu não sei se é de mim ou se é mesmo assim, sair de um filme a chorar e deixar a água cair no tapete azul do cinema até ser um lago calminho cheio de rãs e nenúfares...