Atrás da porta posso ser um animalzinho só de pele, lânguido pelos cantos pelos bancos pelos tampos das mesas, suave como uma escama como um peixe transparente, um farelo de perfume que deixo colado na fechadura e que espreita silencioso o corredor. As tílias perdem pestanas amarelas pela rua, cheirosas, o som das folhas a passarem nos dedos dos rapazes que estudam no café, o tabaco que desenha sereias brancas, e os pássaros, os pássaros sempre de férias...
6/23/2010
à espera...
...
así te amo porque no sé amar de otra manera,
sino así de este modo en que no soy ni eres,
tan cerca que tu mano sobre mi pecho es mía,
tan cerca que se cierran tus ojos con mi sueño.
Pablo Neruda
6/21/2010
Penso, num dia mau
quando eu for muito velha haverão homens que continuarão a ser imortais, e tudo o que sinto hoje será farsa maltrapilha.
6/19/2010
6/14/2010
6/08/2010
6/03/2010
Sei o que fazes quando chegas a casa. Sei como tacteias o escuro, sei como o teu suor se mistura na luz impúdica que vem da rua até ao chão, sei como o chão é silencioso e te apanha o vestido escorregadio, sei como atas a boca para não te descobrirem, para não te ouvirem no teu esconderijo no teu segredo, sei como se ensopa o teu cabelo, como mordes fios de cabelo quando tentas não falar, sei como os teus músculos se encrispam, mulherzinha...
5/31/2010
Há um tempo para ficar quieta. Para recostar o corpo num sofá mole e fechar os olhos e sentir o cheiro dos frutos ainda verdes lentamente adultos debaixo do sol. Para descobrir sardas no nariz, conchas cheias de brincos e pedras verdes na gaveta, saquinhos de pano de ganchos e ervas secas, e as paredes são sempre tão cheias do que não ousamos contar a ninguém. Há um tempo para ficar sentada à mesa ver a luz mudar na rua, distraída, sem ver a luz mudar na rua, distraída, há funis em cordéis debaixo de toldos e cerejas nos becos, engraçado, funis em cordéis e cerejas, como descrevem bem a minha cidade.
5/17/2010
Álbum
Poderia viver só de belo, sentada na cadeira virada para as janelas a contar estrelas em cada vidro, apenas, ensurdecer de música, um copo de água com dedadas minuciosas.
Um dia houve em que os homens cantaram debaixo de lua e sal, garrafa na mão marinheiros, era eu ainda acabada de começar, cabeça desgrenhada de criança cheia de pó, longa viagem o cansaço caído no chão debaixo de lua e sal, vi gente dançar, vi gente dançar, vi gente lançar-se ao mar sem medo de ter corpo, vi gente dançar.
Repito-me. Em frente ao actor lembro quando também eu ardia e transpirava as luzes escuras do palco e a mentira era comovente como uma estória antiga. Quase verdade, não fora a luz demasiado bela, azul, as crianças penteadas em golas de renda, loucos com mãos de cetim, velhos trapezistas, pó de arroz em lufadas brancas nas cortinas... Volto a dizer, há música que não ouso escutar, é outono debaixo dela há risos debaixo dela sem sapatos nas folhas que se partem, quero partir para nunca mais voltar, sou um pássaro estilhaçado.
5/08/2010
Balada de Despedida do V ano Jurídico
Da primeira vez furei a multidão, era tão pequena, tão orgulhosa na minha capa negra. Fechei os olhos e sorri, tanto tempo pela frente ainda...
Hoje traço a capa e sei que em breve partirei. E cada música tem palavras que conheço bem, íntimas, aconchegadas em mim como a minha capa negra. Tu ouves mas não estás aqui, não sabes que não se respira até ao último acorde, medo que seja já a última vez.
Da próxima vez será a minha última serenata.
5/02/2010
faixa um
Esta música é tua, menino.
Quando daqui a muito tempo formos velhos esta música será tua, e a tua casa terá gatos e hortelã como hoje. A tua casa será azul como hoje e eu dentro dela com vinte anos, eu dentro dela adormecida no sofá, pequena num cantinho, a cabeça tombada em paz e o incenso a desfazer-se em rápidos véus, os gatos, a música que é tua. Tranquila casa, tranquila casa de mestre...
4/26/2010
Colégio Vasco da Gama
Na minha escola havia o homem com poucos dentes que cuidava as rosas, botas de borracha, e que nos levava em molhinhos de gente pequena a ver os coelhos e os porcos. Senhor Alexandre.
O senhor Elias era mosqueteiro de livro de espadas, bolsos cheios de trocos para chocolates, estórias de encantar garotos e mãos miúdas de podar galhinhos. Sabia o nome de todas as flores.
Havia um homem do lixo sujo e ridículo, não me lembro de gostar dele, não me lembro de nada na sua cara que não sempre o mesmo pó o mesmo riso a voz alta.
Na escola havia a senhora da sineta, uma sineta de verdade pesada e grande que nos empurrava de uma só vez para dentro da sala, havia pássaros e pinheiros e areia e formigas no chafariz e bichos de conta que escondíamos nos bolsos e tanta gente a quem nunca poderei apertar a mão e pedir desculpa pela minha então magra idade, ainda tão indiferente a tesouros.
4/15/2010
Mas afinal é a minha casa, a minha casa é um circulo de giz com sapatos e bonecas dentro e tem tantas janelas como se não tivesse paredes, só o céu e a chuva que de repente fez uma cortina de pano grosso em frente à mesa onde me sento. A minha casa tem tantas janelas como se fosse rua e não houvesse janela nenhuma, só o tremer do chão com a passagem de um autocarro, a voz do homem do lixo à meia-noite e um bocadinho mais, a trovoada.
Chove sem frio. Desmoronam-se coisas barulhentas no céu. As cidades fazem silêncio nos dias de trovoada...
Vou sentir falta da minha casa, quando daqui a pouco me for embora.
4/12/2010
Deito-me cedo. Nada mais me espera depois de fechar a porta de casa. O pó dos livros. Os cactos sobrevivem no meu alheamento. O pão que como a olhar a rua, a noite a chegar aos vidros dos carros.
O silêncio das coisas que são nossas e que não nos incomodam o adormecer.
Na minha rua alguém toca saxofone e as árvores são velhas e estão em flor.
Um dia partirei e terei de inventar tudo de novo. Erguer a minha casa do pó. Escolho um figurino e todos acreditarão. Dar a mão um estranho. Espero partir, partir...
Amargo na boca... Por isso apago a luz e deito-me cedo.
3/24/2010
3/05/2010
Alice in wonderland
Antes do pequeno-almoço acredito em pelo menos seis coisas impossíveis:
A Lua quando cresce é um sorrisinho de gato matreiro
A Lua cheia é um lencinho de renda que voou
Durante a noite as bonecas brincam sem eu ver
O nevoeiro é o sol vestido de tules de noiva
Nos relógios de cuco há alguém pequenino que assusta o pássaro às horas certas
Amanhã passarei o exame de condução.
A Lua quando cresce é um sorrisinho de gato matreiro
A Lua cheia é um lencinho de renda que voou
Durante a noite as bonecas brincam sem eu ver
O nevoeiro é o sol vestido de tules de noiva
Nos relógios de cuco há alguém pequenino que assusta o pássaro às horas certas
Amanhã passarei o exame de condução.
3/03/2010
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